Mal desço do ônibus a moça me entrega um folheto com sugestões turísticas e no verso leio: “Por aqui passou (e passa) gente de todas as raças, de todos os credos. Cristãos, muçulmanos, budistas. Brancos, negros, amarelos. Vermelhos, mestiços. Alemães, franceses, austríacos. Judeus, candomblistas, ateus. Pobres, ricos, remediados, endividados, estudados, estudantes. Vêm namorados e amantes. Casados, separados, crianças. Chegam pintores e suas cores: acadêmicos, contemporâneos, abstratos, muitos primitivistas. Junto com eles aportam outros artistas - os dos sons andinos nas charangas, os ainda hippies com flautas; homens e mulheres com bandolins, violões, cuícas, berimbaus e pandeiros...”
Nem acabo de ler as frases seguintes e já me sinto mais um personagem do texto, chegante, itinerante, simples turista. Caio inteira no clima, entre flores, cores, rumores do rio que corre sob meus pés. Cruzo a ponte. Faz frio, cai uma névoa que confere à paisagem uma moldura de sonho. Artesãos trabalham tranqüilos ao lado das barracas - quantas centenas somarão? Na curva entre duas primaveras roxas e alguns móbiles de metal dourado me aparece, quem diria, um sax: “...somewhere over the rainbow... way up high/ there’s a land that/ I heard of once in a lullaby...” Quedo-me em transe, passe de mágica: onde estará Dorothy? cadê o homem de lata?
Prossigo galgando ladeiras e percebo que o som agora vem do alto: numa sacada, um trio canta canção dos Beatles. Não poderia ser outra, é Imagine! Invade-me uma sensação de perplexidade diante de tantas coisas misturadas nas mil barracas: méis e imagens de terracota; vasos de brincos-de-princesa e artesanato de ferro; flores secas e peças de tecelagem; livros antigos e velas de todas as formas; orquídeas e cocares; bijuterias e telas, mil telas tentadoras se oferecendo em beleza de todos os tamanhos.Compro uma que me lembra Waldomiro de Deus, mas é de Magali dos Anjos.
Paro e entro no museu de arte sacra, prédio setecentista. Atrás das portas pesadas de séculos o afixado rol dos enterrados à direita e à esquerda do altar. Além a Igreja, o claustro, os bem cuidados jardins interiores com símbolos religiosos - a cruz de begônias vermelhas, o ostensório de margaridas. Mais os santos assinados por Macaré, padre e escultor: que expressivas feições exibem seus apóstolos na santa ceia, sua nossa-senhora morena, seu cristo mulato. Não há um único ariano entre as peças, tudo está conforme a verdade da nossa mestiçagem.
Sinto fome, depois de tanto subir e descer os morros de Embu das Artes, que me lembra Montmartre. Devoro um apfelstrudel em um cantinho alemão. E passo agora a receita, inspirada pelo lugar. Se não conhece, experimente. Tão bom o prazer de uma descoberta!
Faça assim. Com a ponta dos dedos misture farinha de trigo, água, manteiga e sal. Sove até obter uma massa lisa e mole. Deixe descansar durante meia hora. Enquanto isso, prepare o recheio.
Descasque as maçãs, retire as sementes, corte em fatias bem finas, coloque numa tigela, borrife o limão e polvilhe metade da farinha de rosca. Leve a manteiga ao fogo numa frigideira até dourar e despeje sobre as maçãs. Mexa. Junte as passas, o açúcar, a canela.
Agora vem a parte mais delicada. Estenda um guardanapo grande sobre pia ou mesa. Enfarinhe. Coloque a massa e passe o rolo até ficar bem fina. Disponha então o recheio sobre ela e com cuidado, com o auxílio do pano, enrole como rocambole. Feche as pontas e deite em assadeira untada. Pincele com gema. Leve ao forno quente por meia hora. Salpique açúcar antes de servir.
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