Foi de propósito que eu deixei passar a euforia das festas do cinqüentenário do Magazine Luiza e a inauguração de mais 44 lojas da empresa, em São Paulo. Fiz desta forma para não misturar as coisas: uma empresa fantástica com uma mulher vencedora, com a mulher que não vacilou diante de obstáculos, de dificuldades que pareciam intransponíveis. E que merece uma estátua em praça pública em nossa cidade.
É ela mesma, Luíza, que deu seu nome ao magazine que hoje todo o Brasil conhece. Fico feliz por ter acompanhado, ainda que de longe, sua brilhante trajetória.
A mulher era um gênio na difícil arte de vender. E na sua simplicidade de trabalhadora austera, cordial e delicada, foi conquistando espaço, montando sua lojinha. Pelegrino José Donato assessorando, o negócio cresceu. De lojinha a lojona. De lojona a cadeia de lojonas, das maiores do País.
Escrevendo só agora para cumprimentar a amiga e não apenas para homenageá-la, mas também para rememorar episódio que me marcou muito sobre sua invejável competência de vendedora.
Lá pelo ano de 1965 - talvez um pouco antes - minha mulher Jacinta e eu passeávamos pela Rua Voluntários (onde hoje é o Calçadão), quando, de repente, despencou o maior temporal. Passava um pouco das seis da tarde.
Corremos e conseguimos nos abrigar na nova loja do Magazine Luíza, uma das poucas que ainda permanecia aberta. Sacudindo a água que escorria pelas nossas roupas, ficamos a andar pela loja, apreciando os novos aparelhos eletrônicos que acabavam de chegar.
E apareceu a Luíza, que já havia trabalhado o dia inteiro, mas que estava ali, igualmente inteira, sem a menor aparência de cansaço. Conversa vai, conversa vem, comentei alguma coisa sobre uma bonita geladeira Frigidaire, vermelhona, a primeira que havia sido fabricada no Brasil, com freezer.
Mas que beleza de geladeira!, eu disse, verdadeiramente maravilhado. “É sua”, disse Luíza com a firmeza de uma vendedora que tem a palavra certa na hora certa. Não ... Eu já tenho geladeira... E muito boa... E ela: “você paga como quiser...”. A conversa continuou e a notável vendedora, confiante no seu sucesso, sacou o talão de notas fiscal e começou a preencher.
E eu acabei comprando a Frigidaire de que não precisava. Linda, inteiramente vermelha, enorme, quase não coube na copa da minha casa, onde já havia uma outra. E ela me foi útil durante muito tempo, até eu me mudar de Limeira para Santos, quase vinte anos depois da compra.
Já há algum tempo, a inigualável vendedora passou o comando de sua fantástica cadeia de lojas para as mãos competentes dos sobrinhos Luizinha e Wagner; e às do Onofre Trajano, seu irmão. Tenho certeza, porém, que ela continua ligada em tudo o que se refira ao Magazine Luiza, menina dos seus olhos, fruto de sua criatividade, filha querida...
Henrique O. Marconi
Advogado tributarista, economista, administrador de empresas e escritor, residente em Santos.
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