Nada como num dia de preguiça culinária, pegar o telefone e pedir um lanche, um caldo, uma pizza. As ‘deliveries’ são – ou deveriam ser – fast (rápidos) e práticos exemplos das vantagens do globalizado mercado capitalista, mas há controvérsias...
Agradeço estimulantes manifestações sobre os textos “Paciência, gente...” e “... que todo mundo lê”, disponíveis para leitura em http://www.comerciodafranca.com.br/materia.php?id=34470 e em http://www.comerciodafranca.com.br/materia.php?id=34793, que publiquei neste Comércio nos dois últimos sábados.
Os temas centrais – convivência em grupo e regras básicas de protocolo e cerimonal – levaram pessoas de todas as classes sociais à leitura e isso me é honroso. Também, me obriga a continuar deflagrando neste espaço debates de reconstrução do respeito humano que lá vai, descendo a ladeira. Virão outras abordagens, certamente.
Escolhia o tema para hoje quando o Alexandre Fischer – que de quando em quando atua como meu interino – me contou uma excelente história sobre a selva de pedra em que se transforma o comércio, mesmo e apesar da concorrência. Pedi-lhe que a traçasse no papel. Gostei muito do divertido e pedagógico texto sobre alimentação rápida que ele concebeu e resolvi publicar. Assino junto. Leia. Você vai se ver na história.
“Noite de sábado, fim de um cansativo plantão. Chego e encontro a companheira tão esgotada e tão esfomeada quanto eu. Para quem se dedica ao arroz com feijão, bife e salada de segunda a sexta-feira, um possível alívio de fogão é quase uma obrigação. A chuva lá fora mais refresca que atrapalha, mas dá preguiça sair se o telefone está logo ali, ao alcance da mão. É o cúmulo da comodidade, mas, neste mundo consumista, não tirar proveito é burrice.
As palavrinhas ‘fast food’, que arrepiam nutricionistas, são o que há para estas horas. Comida rápida, portanto!!! E o mais ‘delivery’ possível. Isso significa que vou ficar deitado esperando a comida chegar até mim. Aliás, não pode haver nada mais perfeito para fim de semana e noite chuvosa. Escolho: lanche? Pizza? Salgados? Caldos? A demora da decisão dentre as inúmeras opções só aumenta a fome. Decido-me por proximidade: onde está o “delivery” mais “delivery”? Claro: o mais perto de casa possível! E é aí que começam os problemas.
Ligo, escolho, confirmo e pergunto: quanto tempo? “Quinze minutinhos”. A segurança com que soa a frase decorada da atendente faz com que nosso organismo programe um despertador interno para a fome. “Está chovendo, trânsito ruim... será que não vai demorar mais?”, pergunto. “No máximo 20 minutos”, responde a voz, já meio distante do gancho, querendo que eu desligue. Acho que vai demorar. Vou programar a fome para 30 minutos. A companheira, bocejando pergunta se demora e me previno: “Em 40 minutos estaremos lanchando e preparando para deitar”.
Trinta minutos depois ligo meu radar. Isolo os latidos dos cães da vizinhança, as manobras dos carros nas ruas e acho que chego a perceber sons das motos que circulem a até dois quarteirões de distância. Moto rápida demais... não é. Motor 600 cilindradas... também não é. Enquanto tento dar uma de morcego, tiro a atenção do filme que assistia e das horas. Já são quarenta e cinco minutos . Ainda é tolerável, mas meu despertador biológico já tocou e a fome estrila cobrando, fazendo me doer a cabeça.
Aos cinqüenta minutos me desespero. Minha mulher se vira para mim e faz a pergunta fatal: “Você deu o endereço certo”? Enrolo esperando os comerciais, aumento meu radar e nada. De volta ao telefone aos 55 minutos. “Já deve estar chegando. Saiu faz tempo”, é a resposta automática da atendente. Maldosamente penso com meus botões que as ‘deliveries’ de Franca deveriam ter secretárias eletrônicas ao invés de atendentes, já que as respostas são sempre as mesmas.
Sessenta e cinco minutos. Leva tanto tempo para dizer sessenta e cinco minutos que a fome até faz enrolar a língua. Agora é o nervosismo que me afeta. A companheira ressona e quase dormindo pergunta, irritada: “Nada ainda?” Saio na chuva até o portão para acentuar meu radar. Agora escuto todo o movimento de motos em três, talvez quatro quarteirões. Nada.
Volto e me acomodo para em seguida pular ao ouvir buzina frente à casa. Olho no relógio: setenta e dois minutos!!! Chuva na cabeça, ansioso, a fome intensa mas já comprometida pela raiva. A mulher dorme no sofá. Não resisti e lasquei no entregador (que sempre é quem leva a culpa): “Atrasando deste jeito vocês vão acabar perdendo os clientes”. A resposta aparentemente também mecanizada pela prática “Muitas entregas, trânsito ruim. Atravessei a cidade”.
Ótimo e justificável, se minha casa não ficasse a apenas dois(!!!) quarteirões de distância!!! Não faço apologia à velocidade dos entregadores, pobres receptores de nossa ira, mas à sinceridade do contrato - verbal, mas ainda um contrato - feito entre o cliente e o prestador de serviços. Caro fornecedor, diga a verdade. São poucas, mas existem em Franca algumas empresas que valorizam o respeito ao cliente e determinam tempo máximo para a ‘delivery’. Mas a maioria, infelizmente, considera mais importante consolidar a venda de um lanche de R$ 10, a garantir ao cliente respeito e a liberdade de escolha.
Não sabem e é bom que a gente avise: o Código do Consumidor garante o direito de quebra de contrato (podemos nos recusar a receber o que encomendamos e não pagar nada), e o amor-próprio nos garante o direito à troca de fornecedor.
O que são quinze minutinhos? Para algumas empresas, mera resposta automática. E não entendem por que o concorrente vai bem...
VALENDO OS DIREITOS
O art. 35 do Código de Defesa do Consumidor diz que (e agradeço ao Denilson Carvalho, nosso especialista na matéria consultado), cumprimento à oferta, apresentação ou publicidade, o consumidor poderá, alternativamente e à sua livre escolha: (I) - exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou publicidade; (II) - aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente; (III) - rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente antecipada, monetariamente atualizada e a perdas e danos.
CONCLUINDO
Você pergunta onde foi parar a fome depois disso? A minha sumiu. A encomenda estava fria e engruvinhada e eu com uma dor de cabeça monstruosa. A da minha mulher virou sono profundo.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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