Sem preconceito


| Tempo de leitura: 8 min
Breno Silveira, 43 anos, estreou como diretor de cinema em 2005, já com um filme recordista de espectadores brasileiros: 2 Filhos de Francisco, foi visto por mais de 5,4 milhões de pessoas que de alguma forma se identificaram com a história da dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. A expectativa em relação ao recém-lançado Era Uma Vez..., que está em cartaz no cinema de Franca, é bem modesta. Neste segundo filme, um projeto que estava guardado havia dez anos, o carioca aposta numa linguagem universal: o amor, que rompe todas as barreiras do preconceito. Em entrevista telefônica exclusiva ao Comércio, Breno Silveira falou sobre a escolha do ator Thiago Martins como protagonista, a seleção do filme Última Parada 174 para representar o Brasil na indicação ao Oscar 2009, de sentimentos e preconceitos. Comércio da Franca - Qual é a mensagem de Era Uma Vez...? Breno Silveira - Eu acho que a gente vive numa guerra que não tem cabimento, não tem vencedor, não tem razão de ser porque o que leva realmente à violência é a indiferença, e o que leva à indiferença é essa falta de acesso das pessoas à cultura, a falta de entendimento do outro lado do muro, é o preconceito. Eu quis dizer que o amor é o mais importante, que o amor no fundo devia ser o mais importante e que se as pessoas tivessem um pouco mais de delicadeza umas com as outras, podia ser diferente essa história. Se olharem para o lado, no filme, não tem um lado errado, eu não culpo ninguém: não é o pai (da Nina) porque ele está tentando, a mãe (do Dé) está tentando, o Dé e até o Carlão estão tentando. Mas ninguém olhou para o lado, ninguém viu a história do outro. As nossas cidades, sejam o Rio de Janeiro ou São Paulo, estão cegas porque não promovem nunca a ponte entre os dois lados e quando isso acontece é sempre um barril de pólvora, infelizmente. Comércio - O ator Thiago Martins (que mora na favela) foi reprovado seis vezes nos testes de elenco. Por que ele foi escolhido? Breno - Ele tentou desde o começo fazer o filme. Me encontrou quase um ano antes dizendo: “Esse personagem sou eu, tem a ver com a minha vida, quero fazer esse filme”. Eu o reprovei e falei: “Você tem uma cara muito bonitinha, já está com perfil de ator de novela, talvez não seja esse o seu papel”. Mas seis meses depois ele voltou de novo e no terceiro e último teste veio com o cabelo raspado, tendo passado vários dias na praia com uma “pinta”. Falei: “Cara o que você está fazendo?”. Ele falou: “Eu quero fazer o seu filme porque essa história é a história da minha vida”. Então quando ele fez o teste fiquei tão emocionado que falei: “É você, eu tenho certeza”. Comércio - Na minha opinião achei que teve boa química entre ele e a Vitória Frate... Breno - A Vitória também veio de uma coisa que é parecida com a vida dela, uma menina delicada. Ela leva a Nina dentro da alma, faz a personagem de uma forma sincera, como o Thiago, com poucas palavras, melancólica. Eu acho bonito e isso encantou o Dé e me encanta. Comércio - Você vê alguma semelhança entre 2 Filhos de Francisco e Era Uma Vez...? Breno - Se você reparar bem, sim. 2 Filhos fala sobre histórias humanas, de uma relação de dois irmãos, como é o amor de pai e de mãe. Eu tento entrar nas pessoas simples, humildes e entender um pouco a vida delas, mostrando sempre, sempre, sempre, através do amor, através de um olhar humano o que é viver num contexto. Acho que se no 2 Filhos eu quis dizer: “Acredite no seu sonho, mesmo que ele pareça impossível”, em Era Uma Vez... eu quis dizer: “Olha pro lado, olha pro próximo porque talvez você esteja enganado sobre o seu conceito em relação às coisas”. Nós achamos sempre que o caminho é a violência, “botar” o exército, mas eu acho que o caminho é mais humano, é pensar como o outro vive, é não julgar. Comércio - Como surgiu a oportunidade de se lançar como diretor de cinema? Breno - O Zezé (da dupla Zezé di Camargo & Luciano) queria um diretor da Conspiração Filmes, muita gente recusou e eu acabei topando. Não sabia até então aonde eu estava entrando porque sou do Rio de Janeiro. Então comecei a descobrir a força desta história. O próprio sr. Francisco me levou naquele barraco que construiu à mão e quando ele acabou de contar a história e falou: “Aqui eu sonhei tudo”. Eu falei: “Sou bobo de não fazer essa história. É tão bonita”. Aí mergulhei numa história que eu estava apaixonado, muito mais que seguindo uma pessoa que eu era fã. Até porque sou amigo do Zezé, gosto das músicas, mas não sou fã. Quando eu fiz o filme achei que tinha errado, porque eu não “botei” muito o Zezé. Pensei que o longa seria recusado pelos fãs e que as pessoas que não gostavam ou tinham algum preconceito em relação à música sertaneja também não iriam. Achei que tinha feito a maior besteira do mundo e não tinha certeza que o filme ia ser esse sucesso bonito. Inclusive de boca a boca, foi rompendo preconceitos, para mim é a coisa mais importante: nos dois filmes eu falo do preconceito - com uma música, com alguém que veio do interior ou da favela, uma temática importante nos meus trabalhos. Comércio - E os brasileiros se identificaram com a história... Breno - Com certeza. Essa história de você lutar e não desistir é muito brasileira. Você acreditar o tempo inteiro que pode dar certo, apesar de viver num País muito pobre, com poucas condições e não perder a fé no que você quer fazer é importante. Muitos brasileiros são “Franciscos”, num mundo com poucas chances você é, eu também, e as pessoas se viram ali. Nessa precariedade, como é bonito dar a volta por cima, muito bacana isso do nosso povo. A gente tem uma espécie de fé no futuro, faz parte da nossa cultura. Comércio - Esse sucesso te incentivou a fazer Era Uma Vez...? Breno - Por incrível que pareça, Era Uma Vez... foi o primeiro filme que eu tinha escrito há dez anos, quando sonhava em fazer cinema. Eu tinha guardado para estrear, mas na época ninguém se interessou muito, não acreditou nem em mim, nem na história. Isso me deixou muito triste. Mas dei a sorte de ser convidado para fazer 2 Filhos e resolvi voltar ao meu primeiro roteiro. Tenho certeza que na época seria novidade porque ninguém falava de favela. O problema ali não é a favela, é o preconceito e como a gente julga. Que o amor, os sentimentos e a dor, tanto nos ricos quanto nos pobres, são iguais. Tento desvendar uma coisa que as pessoas não estão enxergando. No fundo, todo mundo faz parte da mesma cidade, todo mundo está no mesmo barco, se apaixona, sofre... O filme te leva a uma emoção, às vezes você ri, chora, se apaixona. É uma gangorra entre a lágrima e o sorriso. Comércio - Qual será o seu próximo filme? Breno - Estou escrevendo a história de Gonzaguinha e Gonzagão. Estou tentando terminar o roteiro. É a história de duas pessoas que brigam muito na vida e quando um perdoa o outro é muito tarde, a vida já passou. É a relação de pai e filho e das pessoas que não conseguem perdoar umas às outras. Uma história bonita, forte, de gente famosa, mas também para se emocionar. O importante nos meus filmes é as pessoas saírem pensando, levar o filme para casa. Você vai começar a prestar atenção no pipoqueiro, na pessoa que varre a rua, quem são esses seres invisíveis na nossa vida e que a gente não dá valor. Comércio - Era Uma Vez... foi um dos 14 filmes nacionais que concorreram à indicação ao Oscar. O que você achou da escolha de Última Parada 174, de Bruno Barreto? Breno - Eu não vi o filme, mas está todo mundo falando muito bem. Fico contente que a comissão tenha escolhido. Acho que agora a gente tem que torcer pra ele, não acho que temos que ficar polemizando em torno disso. O júri decidiu e deve ter os seus motivos, não deve ser um filme ruim, deve ser bom, senão não teriam escolhido. Não vi para opinar, mas agora estou torcendo para o 174 e o importante mesmo é o nosso cinema dar certo lá fora. Comércio - O cinema nacional tem produzido muitos filmes nos últimos tempos. Você acha que no Brasil há público para essas produções? Breno - Acho que tem sim. Dos 100% das pessoas que assistem a filmes no Brasil, 90% assistem aos estrangeiros e apenas 10% do público vê os nacionais, sendo que dessa parte, em relação aos jovens, esse índice cai para menos de 5%. É complicado, precisamos restabelecer esse canal e conquistar o nosso público. Era Uma Vez... vai tocar mais os adolescentes e isso me ajuda a ter um público futuro melhor. Comércio - Como poderia conquistar o público. Com filmes mais comerciais? Breno - Não posso negar que os meus filmes tenham algum toque em relação ao grande público. 2 Filhos é um fenômeno, uma raridade e nem o Batman - O Cavaleiro das Trevas o ultrapassou nas bilheterias. Era Uma Vez... não estreou com o mesmo número de cópias, fala para um público mais difícil, não tem muita abertura, mas em compensação já é o segundo filme no ranking mais visto do ano no Brasil. Isso significa que os meus filmes têm uma relação com o público. O importante no meu trabalho é que eu não faço filmes para o público, mas eu faço pensando no público. Como ele vai atender, de que forma posso deixar a linguagem e a mensagem clara para qualquer classe social, geração, raça e lugar.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários