Na Vila Aparecida, em Franca, uma jovem de 18 anos vive sozinha em uma casa de aluguel. Ela cozinha, lava e passa a própria roupa, vai para o trabalho, pratica esportes e tem amigos. O leitor pode dizer que não há nada demais nisso. A opinião pode mudar se ele souber que Camila Carine Marinho Garcia é quase cega. Ela possui apenas 5% da visão e, inclusive, está perdendo esse pouco que lhe resta. Nada disso é empecilho para ela levar uma vida, considerada pelo senso comum, como normal.
Camila e mais nove pessoas são esportistas, membros das equipes de representação de Franca e da Sociedade dos Cegos. Com ardor, não se intimidam pela deficiência visual e provam que a capacidade de viver e alimentar os sonhos independe da possibilidade de ter o mundo aos seus olhos.
Ela e esse grupo de pessoas, em parceria com a Sociedade e um patrocinador do setor privado, estão trabalhando para reativar o time de goalball na cidade. As equipes masculina e feminina foram extintas pela falta de incentivo e desinteresse dos praticantes há oito anos. O interesse em retornar ao esporte, criado na Alemanha em 1946 especificamente para cegos, é tentar atingir não só o fator esportivo, bem como uma meta social. Hoje, o esporte está presente em 112 países, nos cinco continentes.
Marcos Vinícius Silva Raiz, 22, formando em Educação Física e que tem apenas 10% da visão, é um dos coordenadores do projeto originado há três meses. "Queremos formar duas equipes. Uma com pessoas de 13 a 25 anos e outra com integrantes de 30 anos ou mais. O goalball ajuda a desenvolver a audição, a coordenação motora e auxilia o cego a apreender a cair. Por isso é um esporte muito bom", avaliou o estudante.
O coordenador e também jogador Marcos espera que por meio do esporte seja possível romper uma barreira que muitos pais, parentes e conhecidos impõem aos cegos. "Aqui na Sociedade dos Cegos muitas pessoas aprendem como viver sem a visão. Um exemplo simples é ensinar a lavar a louça. Em casa a mãe ou outras pessoas não deixam o deficiente fazer nada por medo de se machucarem. Isso deve ser evitado", explicou.
Camila Garcia torna-se a referência nisso. "Eu decidi viver sozinha há cinco meses por não me dar tão bem com meus pais. Vou falar que é fácil? Não, não é. Nessa hora é preciso querer e eu quero e posso", disse a jogadora de goalball.
Com uma verba de quase R$ 100 mil repassados pela empresa de telefonia móvel Vivo, a Sociedade dos Cegos está construindo uma quadra em sua sede, na Rua Santa Catarina, 802, Vila Aparecida. O término da obra está previsto para novembro. "Estamos estruturando a equipe e temos uma pré-conversa de fazer um contrato com a Vivo para mantê-la, além de desenvolver outros projetos em parceria com a empresa a partir de 2009", disse o presidente da Sociedade, Homero Alves de Oliveira.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.