Além do privilégio em conhecer Jeremias Joe, considero também ter sido grande honra poder privar de sua amizade, que transcendeu sua ausência.
Foi bem na minha adolescência que o vi pela primeira vez, ocasião em que enfrentava sérias dificuldades com o seu cão da raça Pinscher que atendia pelo nome de Teobaldo, nome dado ao animal em homenagem à grande obra shakespeareana, Romeu e Julieta.
Temperamental e entediado, Teobaldo havia se soltado da coleira e estava dando o maior baile em seu senhor. O palco de tudo aquilo era a cercania da Concha Acústica, bem na Praça Nossa Senhora da Conceição, nas primeiras horas de um sábado, véspera de Natal, ruas formigando de gente de um lado para o outro.
O que me levou a conhecer Jeremias e seu Teobaldo foi um pastel... Comprei-o minutos antes na pastelaria do Japonês que existia de frente à Praça 9 de Julho. Aquele dia estava quente e prometia; o expediente nas Casas Pernambucanas iria até as 15 horas e o pastelão garantiria energia para mais algumas entregas.
Tenho que admitir que ter sido pacoteiro naquela época não foi ‘bolinho’, pois pilotávamos uma bicicleta ‘cargueira’ com suportes na frente e atrás abarrotados de mercadorias para entrega a tradicionais famílias na região central. Lembro-me, ainda, que mais a empurrava do que pedalava; seu peso era grande e vivia pendendo para os lados; minha gravata apertava, a roupa desalinhava; e o salário... O salário era como eu naqueles tempos... Mirrado e pequeno. Mas, mesmo assim, posso dizer que era feliz!
Foi quando ouvi alguém dizer em voz alta: ‘volta! Hei! Volta aqui,Téo! Juro que ao chegar em casa acerto as contas com você!!!’. Aquele exato momento estava passando eu e meu pastel (já pela metade) quando um desesperado homem de coleira na mão me pediu um pedaço da massa, “para atrair o cão”. E o Teobaldo veio. E foi preso. A partir daí, sempre brincávamos de dizer que um pastel comido pela metade tinha sido o responsável pela nossa amizade.
Professor universitário de conceituada instituição nas Minas Gerais, Jeremias vinha para Franca nos finais de semana para visitar a avó octogenária. Amava a cidade e sua história. Considerava o nosso povo generoso e hospitaleiro; Franca para ele tinha encantos especiais.
Falava que não havia outro lugar no mundo onde se pudesse encontrar mulheres tão belas e apaixonantes como as nossas. Seu coração andava sempre em busca de alguém com quem pudesse se entender e fazer prosperar a sua sorte.
Era um homem virtuoso, sempre a postos para ir ao encontro dos amigos quando mais precisavam. Atencioso e preocupado, sofria junto e se envolvia na busca de caminhos que pudessem trazer alento a almas sofridas.
Creio que ao convivermos acabamos por nos tornar um pouco aqueles com que convivemos ou um pedaço. Ficam impressas em nós as suas marcas.
Pude aprender muito com Jeremias Joe. A partir de uma certa época, moribundo, continuava ensinando lições de humanidade e amizade. Às vésperas de um outubro, me brindou com um sorriso de despedida e disse: “seque suas lágrimas, meu bom amigo; cultive a camaradagem e, coma pastéis...”.
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e do Comércio da Franca
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