A Bíblia sem tradução


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Quem como eu estuda as igrejas evangélicas e protestantes em busca de compreensão e entendimento fica surpreso com um ponto comum entre as muitas denominações: todas se julgam iluminadas pelo Espírito Santo e detentoras do entender Bíblico. Só que os fatos mostram uma outra realidade. Não creio que o Espírito Santo ensine português, grego, hebraico e latim, as línguas da Bíblia e dos primeiros documentos cristãos. E o que causa essa separação lá, também causa cá, na Igreja Católica. Isso acontece quando estudamos a Bíblia e acreditamos que sabemos tudo o que importa, mais até que os padres. Esse é o alerta que nos deve acordar. A arrogância é o instrumento mortal divisor (diabolos em grego). Não custa lembrar que a Bíblia foi composta ao longo de centenas de anos em línguas já mortas ou modificadas. E mais ainda, mesmo uma língua viva como o português, vemos que em cada região do Brasil, a língua tem suas próprias peculiaridades. Imagina se acrescentarmos Portugal em nossa análise. Em uma tradução pode-se encontrar interpretações viciadas e isso gerar confusão. Por exemplo, vemos “Então Maria deu à luz o seu primeiro filho” (Lc 2,7), porém, no português, essa expressão “primeiro filho” insinua segundo, terceiro, quarto, por isso há quem acredite que os “irmãos de Jesus” eram também filhos de Maria e José. Só que a palavra grega “protótokos”, traduzida por “primeiro filho”, deve ser entendida no contexto judeu. Em hebraico e aramaico, a palavra bekor, primogênito, não designava sempre o primeiro, mas também o preferido, bem-amado, aquele que detém todo o amor de pai e mãe. Como também é observado na cultura egípcia. O primogênito era especial para Deus e devia ser consagrado ao Senhor desde os seus primeiros dias. A palavra “primogênito” podia mesmo ser sinônima de “unigênito”, pois para os semitas, elas designam “o bem-amado”. Assim, traduzir “protótokon” por “primeiro filho” é fazer uma opção de interpretação do texto, que não condiz com o contexto da Bíblia. Outro erro comum é a palavra Jeova que não está presente nem na Bíblia em grego nem no texto hebraico. Esta aberração lingüística surgiu após o século VI, quando os massoretas (rabinos judeus) quiseram colocar as vogais por escrito no texto bíblico; mas ao nome de JHVH não deram vogais, apenas escreviam na sua proximidade as vogais de ADONAY (meu senhor): a mudo (com pronúncia de e), o e a. Donde se fez Jehovah. Vê-se, pois, que o nome Jeová nem sequer está na Bíblia, mas resulta da combinação feita pelos judeus medievais dos nomes Jahveh e Adonay. Vê-se algumas traduções evangélicas, as passagens sobre a Eucaristia (Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19s; 1Cor 11,23-25) traduzidas por: “Tomai, comei, isto significa meu corpo. Isto significa meu sangue do pacto”. Só que no texto original está escrito “esti” (é) e não “semainei” (significa). Ou seja, o correto é: “Isto é meu corpo. Isto é meu sangue”. Usemos uma boa Bíblia e da sabedoria de nossos pastores (verdadeiros) e tenhamos sempre em mente o conselho de São Paulo: conheces as Sagradas Escrituras e sabes que elas têm o condão de te proporcionar a sabedoria que conduz à salvação, pela fé em Jesus Cristo. Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra (2 Tim 3,15-17). Mario Eugenio Saturno Tecnologista do INPE, professor do Instituto de Ensino Superior de Catanduva.

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