O Brasil possui, espalhados pelo seu território, mais de 200 Tiros de Guerra, unidades do Exército que desempenham funções específicas no preparo da defesa nacional. Desde 1945, Franca abriga uma delas, que conta com o efetivo de 100 recrutas atualmente sob comando do subtenente Roberth e do sargento Langner.
Embora o TG seja uma instituição bastante presente na vida da comunidade - junto à qual desenvolve atividades que vão desde a doação de sangue e agasalhos até visitas a asilos e o hasteamento da Bandeira Nacional nas escolas -, pouco se sabe sobre sua rotina. Esse desconhecimento ocorre, em parte, porque o limite de 100 homens obriga o TG a dispensar a maioria dos conscritos, inclusive muitos dos que gostariam de ser incorporados às suas fileiras. Todo ano, a Junta de Serviço Militar da cidade recebe quase 3.500 jovens em idade de alistamento, dos quais aproximadamente 900 se apresentam como voluntários. Dentre estes últimos, 100 são pinçados após rigorosa seleção, que inclui uma entrevista, além do tradicional exame de saúde.
A missão primordial de um Tiro de Guerra, em tempos de paz, é preparar a defesa dos chamados “pontos sensíveis” do município, as instalações básicas cuja danificação comprometeria atividades vitais para a sobrevivência da população. No caso de Franca, os pontos sensíveis mapeados pelo TG são as estações da Sabesp e da CPFL, a Santa Casa, a Prefeitura, a rodoviária e o aeroporto. Cada um deles foi devidamente estudado e, em caso de guerra ou grave desordem, esses pontos seriam ocupados e vigiados pelos atiradores segundo planos preestabelecidos, revisados anualmente.
O período de instrução do TG vai das 6 às 8 horas, mas engana-se quem imagina que a intensidade do treinamento deixa muito a desejar comparativamente ao que ocorre nos quartéis, onde os soldados passam o dia inteiro. A diferença está mais na quantidade e freqüência das atividades do que na qualidade.
Nesta última ocorre uma adaptação dos métodos, para adequar o preparo dos jovens ao papel específico do TG, mas nem por isso os rigores da hierarquia e da disciplina deixam de dominar o dia-a-dia dos atiradores: a judiciosa distribuição de condecorações, quando merecidas, e de punições, quando necessárias, faz parte dessa experiência, assim como o aprendizado do patriotismo e o culto aos símbolos nacionais - ensinamentos tão esquecidos nas escolas de hoje. “Enfatizamos o civismo na formação dos jovens, para que eles saiam daqui cidadãos, cientes de seus deveres”, conta o sargento Langner, acrescentando que “a conduta de cada um deles é observada com atenção, pois isso permite dividir as tarefas conforme as aptidões individuais”.
A instrução da tropa no TG de Franca obedece a uma programação quinzenal de aulas práticas e teóricas que inclui quase tudo que é ministrado aos soldados de um quartel: ordem unida, Treinamento Físico-Militar, primeiros-socorros, aproveitamento do terreno, patrulhas, progressão de obstáculos, camuflagem, marchas, controle de distúrbios, armamento, munição e tiro, etc. O fuzil do TG, conhecido como “Mosquetão”, utiliza projéteis do mesmo calibre do armamento padrão dos quartéis, o FAL, mas este se distingue por ser automático, enquanto o primeiro é de repetição.
Realizados anualmente fora da cidade, os exercícios de tiro com munição real são antecedidos por longa preparação: manuseio, forma adequada de empunhar, de prender a respiração, mirar, etc., além dos disparos com munição de festim, para adaptar o novato ao barulho e ao “coice” do fuzil. “Percorrendo essas etapas prévias, você aumenta a possibilidade de eles apresentarem um bom rendimento no exercício com munição real”, explica o sargento. De fato, os gráficos na parede mostram que sete em cada dez recrutas alcançaram desempenho E (Excelente) ou MB (Muito Bom).
Dentro do TG, os atiradores que quiserem - e passarem na seleção - podem ainda freqüentar o CFC (Curso de Formação de Cabo), que consiste em 36 horas adicionais de instrução, conforme uma grade específica. Se, por um lado, sofrem cobrança maior, os alunos do CFC exercem funções de maior responsabilidade. Se tornam monitores e no serviço de guarda, por exemplo, ficam encarregados de tarefas que, num quartel, cabem ao comandante da guarnição e ao cabo da guarda, ao passo que os demais ficam como sentinelas. Ao final do ano, os alunos do CFC são promovidos a cabos.
O atirador precisa aprender em duas horas diárias o que o soldado do quartel aprende em 12 horas. Por isso, na fase do alistamento, um dos critérios de seleção é o nível de escolaridade. No TG de Franca, 60% dos conscritos já concluíram o ensino médio e 16% freqüentam o ensino superior. Nove em cada dez trabalham em período integral, mas nem por isso tentaram fugir do serviço militar. Pelo contrário: são todos voluntários e se desdobram para conciliar os compromissos profissionais com os deveres militares, pelos quais não recebem remuneração. Servem ao País sem nada esperar em troca, “queimam incenso no altar da Pátria”, como se diz nos quartéis.
Funcionário de uma firma de comunicação, o atirador Andrade inicialmente enfrentou dificuldades: “Fui voluntário porque queria muito servir ao Exército. No início chegou a dar briga lá no trabalho. Meu chefe veio ao TG conversar com o instrutor porque eu tirava serviço de guarda com muita freqüência, mas depois compreendeu que era por uma boa causa”. Segundo o subtenente Roberth, a qualidade dos recursos humanos contribui para fazer do atirador do TG um tipo especial de soldado: “Todos estão aqui porque querem e têm bom nível de instrução. Essas características otimizam o desempenho e facilitam o aprendizado. Para o jovem do TG, basta explicar uma vez, que ele já entende”. No Se Liga Profissões da próxima semana, o Comércio abordará com detalhes as etapas mais duras da instrução no TG, como as marchas e acampamentos, e mostrará os caminhos da carreira militar, ofício que muitos atiradores pensam em seguir.
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