Luz escrita. Quer imagem mais bonita que essa! O significado é este mesmo, ao pé da letra: foto (luz)+grafia (escrita). Talvez, pela própria origem etimológica, é que hoje a forma reduzida “foto” tenha ganhado a conotação de um texto escrito nos meios impressos de comunicação, principalmente no jornal.
A fotografia não só ilustra a idéia central de um texto jornalístico, como atrai para si própria a primeira “leitura”. Quando você pegou o Comércio, provavelmente olhou imediatamente para a foto maior da primeira página. Logo após, leu a manchete, para só depois fazer a leitura da legenda da fotografia.
A legenda fotográfica normalmente identifica a pessoa retratada e faz uma breve explicação do fato ou acontecimento. Já a mensagem da foto não vem escrita e fica por conta daquele momento mágico que, por ser pura inspiração, somente o fotógrafo capta, às vezes, até sem perceber. A publicação da imagem permite múltiplas leituras e conseqüentemente interpretações.
Dia 9 passado, este jornal estampou uma foto tirada pelo premiadíssimo Tiago Brandão sobre o corpo-a-corpo (campanha política pelas ruas) de um dos candidatos a prefeito de Franca. A imagem mostra o exato momento em que o postulante - ladeado pela mulher, cabos eleitorais e aspirantes ao cargo de vereador - estende a mão para um rapaz. O eleitor está sentado em um dos bancos de uma praça central, juntamente com uma criança. Ele nem se levanta. Também não faz a menor menção de que vai apertar a mão pendente no ar. O rosto do político expressa um constrangimento total.
Já no dia 11, para ilustrar uma entrevista eleitoral, o jornal trouxe uma foto da lavra de Dirceu Garcia, com esta legenda: “A candidata a vice-prefeita tira água do filtro de barro e afirma que donas de casa acumulam experiências importantes no dia-a-dia”.
Nunca a palavra contradisse tanto a imagem. Porque, para pegar água, a sorridente política precisou inclinar a talha para frente, numa manobra perigosíssima: com uma das mãos, ela segura a parte superior do vaso de barro; com a outra, aciona a torneira e ainda apara o líquido com um copo. Um vacilo qualquer e só sobrarão cacos. A cena serve também para mostrar a falta de previsão. Essa vasilha de barro deve ser reabastecida periodicamente. Só assim, as pessoas não são surpreendidas pela falta de água filtrada e fresca. Imagine essa negligência doméstica sendo estendida para a administração pública...
Por fim, no dia 14, uma das fotos do jornal mostrou a atual e enorme semelhança física existente entre o prefeito (sem provocações!) e o teatrólogo/apresentador de TV Antônio Abujamra. Até o modo de olhar por cima dos óculos e sorrir estão iguais. Noutro enquadramento, as lentes de Gina Mardones flagraram o prefeito e sua comitiva em plena campanha eleitoral. O grupo caminhava por uma área pública, sem calçamento para pedestres.
Pelo discurso recente, não há promessas de modificações. O segundo mandato terá os mesmos tipos de obras do primeiro. Os moradores do Leporace vão então continuar pisando em terra batida no canteiro central da principal avenida do bairro.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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