O cheiro da cor


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Olfato, paladar, tato, visão e audição são os cinco sentidos básicos do ser humano. Infelizmente, no caminho da vida, nem todos podem usufruir deles e precisam conviver com as lembranças e a superação a cada dia. Desenvolver habilidades é uma forma de encarar a deficiência. Pensando nisso, o artista plástico Beto Monteiro resolveu iniciar um projeto ousado e que vem dando resultados. Ele ministra um curso de pintura para 14 deficientes visuais assistidos pela Sociedade Francana de Instrução e Trabalho para Cegos. Com outros sentidos aliados à sensibilidade e intuição, os alunos conseguem o que muitos acham que seria impossível: preencher as telas de cores e as suas vidas de emoção. A idéia partiu da assistente social Vera Lúcia Alves Taveira, que, através da Pinacoteca Municipal, convidou o artista plástico para desenvolver a arte com os alunos. Beto Monteiro resolveu então experimentar uma gota de motivação para despertar as sensações das cores através do cheiro das frutas nas tintas. “Fiz cerca de 90 testes com várias marcas, pigmentos e texturas como acrílico, óleo, PVA e esmalte. Me surpreendi com os resultados”, avalia o artista, que é especializado em Deficientes Físicos pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru. A Oficina de Pintura, que começou em agosto, é realizada uma vez por mês. Na segunda aula, promovida na última sexta-feira, Beto apresentou as “tintas perfumadas” aos alunos, que as sentiram através do olfato apurado. A cor verde ganhou o cheiro do limão, a vermelha recebeu o cheiro do morango, a amarela exalava maracujá e a branca mostrava-se inodora. A partir daí, a sala foi tomada por um cheiro de salada de frutas que ficou impregnado em cada tela. “Hum, tem cheiro de batom”, disse Alfredo José Cintra, o Mensageiro (da dupla Mensageiro & Beija-flor), 52 anos, que é casado, ao sentir o cheiro do morango. O clima descontraído marcou a aula. Foi a primeira vez que o artista orientou os alunos para a pintura de uma paisagem. Com o tato eles descobriram a textura e o tamanho da tela e se familiarizaram com o pincel. Os dedos serviram como réguas para dividir o chão gramado do céu. A borda do copinho descartável de café criou o sol. Os olhos desta repórter, do coordenador da Pinacoteca, Wagner Voss, da assistente social e do artista plástico também deram uma força. Mas Maria Geralda Ribeiro Silva, 52, dispensou toda a ajuda porque tinha ao seu lado um anjo da guarda: o seu filho David Ribeiro Galdino, de 11 anos. Ora sussurrando ao seu ouvido, ora guiando as suas mãos pela tela, ele conseguiu arrancar um sorriso da mãe, que tem retinose pigmentar - uma doença degenerativa primária da retina, que atrofia os olhos. “A arte é um experimento. Neste laboratório estou sendo o maior beneficiado. É um desafio porque ninguém acreditava que pudesse dar certo”, comentou o artista plástico, o mais empolgado da turma. Muitos que estavam lá guardam na memória a luz do sol e das estrelas, o céu azul e o verde das matas. Dos 38 anos de Odair Moreira Matos, há 15 ele convive com um atrofiamento do nervo óptico. Um problema que o músico (toca teclado desde os 26 anos) superou. “No começo você se desespera, mas nesta caminhada cheia de pedras eu fiz uma escada”, ressalta, afirmando que a pintura está sendo uma terapia contra a sua limitação. Mozair Tomaz Alves, o Beija-flor (da dupla Mensageiro & Beija-flor), 64, também recordou as suas viagens pelas rodovias do Estado de São Paulo, quando ainda exergava. “Meu desenho está parecendo a estrada de Santos, só faltou fazer os túneis”, brincou. “O curso acaba tendo vários papéis: confraternização, lazer e a descoberta de que eles têm capacidade de fazer algo”, afirma a assistente social Vera Lúcia. “Através da pintura conseguimos detectar o que eles estão sentindo no momento: tristeza, depressão, felicidade. Pode parecer um simples rabisco, mas imprime os sentimentos e traz subsídios para um trabalho terapêutico mais eficiente”, disse. Rabisco não é a palavra que define os trabalhos dos deficientes visuais. Mesmo com a limitação eles conseguiram pintar com capricho e perfeição a paisagem proposta por Beto Monteiro. “A pintura os motiva a buscar o que querem. Afirma que eles são iguais e o limite é a gente que faz”, disse Vera Lúcia. “Com o tempo a gente esquece as formas. Eu sinto o sol, mas não posso vê-lo. E a pintura me estimula a manter as imagens vivas dentro de mim”, contou Mariel Verzola Camponez, 21, que há dez anos tem apenas 5% de visão. Tanta empolgação e ótimos resultados já rendem novas idéias. Em outubro, na próxima aula, Beto Monteiro pretende ensinar os alunos a pintar camisetas, que deverão ser comercializadas, com renda revertida à Sociedade Francana de Instrução e Trabalho para Cegos. Por enquanto os materiais utilizados na Oficina de Pintura estão sendo adquiridos pela entidade, que está aberta para receber doações.

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