Escrevo-lhes estas linhas para comentar fatos e alguns acontecimentos que sobrevieram em muito a sua partida desta para uma vida melhor (assim espero!), bem como dizer-lhes que a grande lacuna que as suas ausências definitivas deixaram, não foi preenchida por ninguém até a presente data. Tudo se modificou e bastante, aliás, vocês já devem saber de tudo, eis que vivem hoje em um plano superior ao nosso. Esta carta, por exemplo, é computadorizada, porque caíram em desuso as velhas máquinas de datilografia e poucos têm uma caligrafia decente e sem erros de grafia ou de português, o que faz com que tudo o que escrevam, fique ininteligível.
Quanto ao computador, digo-lhes que é da mesma forma uma máquina que hoje ninguém dispensa, até porque é impossível rejeitá-lo dada a sua versatilidade e as facilidades que nos oferecem. Sabem que ele chega até ser desobediente, como fui naqueles tempos, pois quando pretendo escrever alguma coisa e ele se nega dizendo que estou errado, ele teima até vencer, na maioria das vezes.
Na verdade, acho que estou enchendo lingüiça, porque no plano superior em que vocês se encontram, devem saber disso tudo e, por isto, sabem também que a política em nossa cidade anda num marasmo total, com o candidato à reeleição disparado na frente das pesquisas e, abstendo-se até de fazer campanha enquanto os demais, conformados, brigam entre si, para pelo menos abrirem o segundo turno, o que no momento entendo impossível e inócuo.
Gostaria, entretanto, que pelo menos houvesse uma grande renovação na Câmara Municipal, mas, pela propaganda eleitoral que corre solta, duvido que isto ocorra, porque muitos “Zé da Maria” sairão e outros que nada têm a ver com o cargo pretendido, entrarão. Além do mais, a função de vereador, passou a ser um “bico” muito bem remunerado porque, afora o ganho regular na sua profissão de origem, trabalham apenas uma vez por semana e na maioria das vezes para dizer amém ao que pretende o alcaide, ou para denominar ruas sem nome, para o que precisam de assessoria, de quem alguns cobram metade do salário que eles recebem, além de outras benesses que de vez em quando fazem a alegria da mídia que destaca o fato em grandes e chamativas manchetes.
Aliás, acredito que vocês estão como eu, escandalizados com o grau de corrupção que se alastrou por aqui em todos os setores públicos e agora atinge não só a segurança pública como o judiciário, o que pode preconizar o fim do estado de direito. Cuidem-se os menos favorecidos, porque a formação de quadrilha em todos estes órgãos indica um longo período de desmandos de toda ordem e natureza e a conta, adivinhem quem vai pagar?
Mas, sabe aquela história plantada de que o brasileiro não desiste nunca? Pois bem, apesar de pensar exatamente o contrário, talvez quando eu estiver junto de vocês, se é que me será permitido, assista ao nascimento de novos líderes que despidos da ferrugem ou gosma fedorenta que envolve aqueles e a nos todos, consigam modificar radicalmente todo este sistema falido, proporcionando a toda comunidade, independentemente da nacionalidade, da cor, do sexo, da condição social e econômica e outros detalhes, uma vida digna e gostosa de viver, sem ter que assistir a este circo de horrores que hoje presenciamos. Sem mais, por enquanto, de vocês peço a benção. A todos os nossos que por aí estão, minhas preces e espero que ainda leve um bom tempo para nos reencontrarmos, ou pelo menos, até que Ele, inexoravelmente, me pesque com o anzol do fim dos tempos.
Odorico Antônio Silva
É advogado
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