Pedofobia


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Sinceramente, devo admitir que noticiário policial não me atrai nem um pouco, principalmente quando o assunto é crime contra crianças. Nesse caso específico as vísceras parecem revirar e uma sensação de náusea muitas vezes me faz virar a página ou acionar o controle remoto. Não sei se por bizarra coincidência ou por simples evidência estatística, esses casos de violência contra crianças têm ocupado espaço demasiadamente grande nos jornais e telejornais a que tenho tido acesso nos últimos dias. São meninos vítimas de adultos com frieza para matar, queimar, esquartejar, jogar no lixo parte dos corpos e mandar pelo esgoto as entranhas de seus semelhantes. São crianças assassinadas com golpes de objetos do cotidiano domésticos. São seres humanos indefesos torturados física e psicologicamente até a completa falência dos sentidos. São criaturas recém-nascidas descartadas como lixo. A cada dia somos solapados por mais um desses crimes absurdos. Sentimos um nó na garganta e um aperto no coração, mas a labuta para nos mantermos vivos e provermos o sustento nosso e de nossos dependentes nos faz evitar a análise crítica em busca de uma solução efetiva. E a bem da verdade, talvez nem haja mesmo uma solução efetiva; afinal de contas, se aprofundarmos o debate sobre crimes contra a criança chegaremos àquelas que não são assassinadas de modo cruel e chocante, mas que na verdade são verdadeiros mortos-vivos, pois não vivem para a vida e sim para o tráfico, para o roubo, para a prostituição e para todo tipo de delito que mais cedo ou mais tarde os levará ao fim. Não sou o especialista desta seara, mas tenho a sensação de que, diante do atual estado de coisas especializar-me levará tempo demais diante da urgência que o assunto requer. Vivemos um generalizado estado de pedofobia - a matriz de todos os crimes contra as crianças. Homens e mulheres da era do celular terceira geração estão sob o efeito deletério do ódio, da vingança, da vontade de matar. Matam suas crias, aniquilam seus indefesos semelhantes, eliminam da face da terra aqueles que foram trazidos ao mundo sem ao menos terem sido planejados ou consultados. Quantas crianças ainda morreram nas mãos de adultos completamente descontrolados, doentes, possuídos ou sei lá o quê? Enquanto escrevi esta coluna quantas crianças foram espancadas até a morte, quantas levaram um tiro na cabeça ou pelas costas? Enquanto você lê esta coluna, quantas crianças estão sendo usadas como objeto e quantas outras estão sendo jogadas nas sarjetas? Sinto muito, prezado leitor, se os questionamentos o fazem pensar, o fazem sentir um frio pela espinha, mas se chegou até aqui, saiba que compartilho com você desses sentimentos e admito, não são nada agradáveis. Fujamos das soluções político-partidárias, pensemos em alternativas próprias, ajamos localmente, em nossa casa, em nosso círculo de amigos, em nosso trabalho, em nosso local de lazer, onde quer que estejamos é possível defender a vida e a qualidade de vida de uma criança. Sejamos a exceção, não coloquemos nas condições sócioeconômicas das crianças mortas a responsabilidade pelo crime cometido. SALVE A VIDA DE UMA CRIANÇA - 1ª. SUGESTÃO Podíamos criar delegacias especializadas em crimes contra a criança. Eu sei que alguém dirá que já temos algo parecido. Mas penso em algo mais específico ainda, com ações e estrutura exclusivamente dedicadas para a criança. SALVE A VIDA DE UMA CRIANÇA - 2ª. SUGESTÃO Avaliação psicológica em escolas para diagnosticar precocemente situações de maus-tratos e risco iminente à integridade física e moral da criança. SALVE A VIDA DE UMA CRIANÇA - 3ª. SUGESTÃO Criação de um meio jurídico específico para julgar casos de crime contra a criança com a celeridade que a sociedade quer e que o fato merece, dando aos criminosos a certeza de punição rápida e exemplar. “DELIRIUS POLITICUS” A quem possa interessar é sempre bom recordar 1985, eleições municipais da cidade de São Paulo. Na disputa, dois ícones da política nacional, Jânio Quadros e Fernando Henrique Cardoso. Às vésperas da eleição, as pesquisas davam como certa a vitória de FHC, que de tão confiante que estava sentou-se na cadeira do prefeito e posou para fotos. Urnas abertas, votos apurados, Jânio Quadros derrotaria FHC por uma diferença de menos de 1%. SÓ PRA NÃO PERDER A PIADA Em respeito às mais recentes vítimas da pedofobia, ao invés da anedota de sempre prefiro deixar uma mensagem para reflexão - “Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento.” Alexandre H. Leonel Farmacêutico, ex-integrante do Conselho de Leitores - leonel@comerciodafranca.com.br

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