Fui professor de Direito Tributário em Santos durante vários anos em alguns cursinhos para concursos públicos. Todos eles cursos noturnos. Como grande parte da minha vida foi dedicada àquilo que sempre gostei de fazer - lecionar - continuei nessa tarefa em Santos, até me aposentar na Receita Federal.
Ser professor nesses chamados cursinhos tem uma grande vantagem: os salários são muito maiores do que os pagos nas faculdades municipais, estaduais ou federais e o professor sempre é mais exigido.
De um modo geral, os que procuram os cursos noturnos para enfrentar os concorridos concursos do serviço público são pessoas que trabalham durante todo o dia e colocam todo seu esforço para suportar três ou quatro horas de aulas à noite. E acabam se tornando alunos mais atentos e mais esforçados do que os das faculdades.
Todo esse preâmbulo, no entanto, não tem nada a ver com a história engraçada que se passou comigo no intervalo de uma das aulas no curso denominado “Central de Concursos”, onde lecionei por uns quatro anos.
Como professor, a gente sempre se defronta com todo tipo de aluno: alguns que pretendem ser sabichões, saber mais do que todo mundo e outros, que adoram testar os conhecimentos do professor com perguntas absurdas, tiradas não sei de onde. Há também outros, sonolentos, que não suportam blá-blá-blá de professores muito falantes e caem no sono em plena aula.
Modéstia às favas, não me lembro de aluno dormindo nas minhas aulas, mesmo porque sempre procurei movimentar de alguma maneira meu modo de transmitir conhecimentos aos alunos.
Nas aulas dos cursinhos sempre tem a “hora do cafezinho”, que ninguém é de ferro. E é nesses intervalos que a gente consegue tomar conhecimentos das queixas dos alunos, de seus desalentos e, inclusive, medir o grau de aproveitamento de cada um deles. Ocorrem também coisas esquisitas - para não dizer engraçadas - nessas conversas com os estudantes.
Pois estava eu numa roda de alunos na “hora do cafezinho”, quando uma mocinha, bonitinha, toda afetadinha, de cérebro meio oquinho, me saiu com essa:
- Professor, eu acho as aulas de Direito Tributário muito interessantes porque é matéria que a gente não conhecemos.
Portugueis, por exemplo, nóis já sabe, pois fazem menos de treis anos que gente estudamos no ginásio. Além disso, quando floreio o Código Tributário fico meia fascinada e chego quase a entrar em trânsito”.
Depois dessa conversa com tão “versátil” me restou uma certeza: a mocinha pode até ter sido aprovada em Direito Tributário, por ser “meia” fascinada no Código, mas, em Português - pra ser sincero - não acredito.
Que o digam meu grande mestre e amigo Dr. Alfredo Palermo e o outro grande mestre Prof. Everton de Paula, que transmitem por este jornal seus sábios ensinamentos.
Henrique O. Marconi
Advogado tributarista, economista, administrador de empresas e escritor
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