Quem não conhece os ditos “o que os olhos não vêem o coração não sente”, e aquele outro, “aquilo que não mata, engorda”? Pois então, essas idéias têm se tornado cada vez mais presentes em minha vida. E não é à toa que nelas tento estar amparado quando o caso exige omissão; fechar os olhos e não ver, e nem querer saber o que acontece, para então, tranqüilizar e daí poder comer sem preocupações nos restaurantes, lanchonetes e bares da cidade.
Tenho estado preocupado se não estou ficando muito chato e a exigir por demais dos outros. O processo chatológico começou a mais ou menos três meses. Iniciou quando adentrei num estabelecimento comercial. Meu pedido era simples: um café acompanhado do tradicional pãozinho com manteiga na chapa.
O dia era belo, o astral estava bom, mas, pude botar reparo que a moça atrás do balcão e que serviria o meu desjejum parecia muito gripada. Tossia muito, pigarreava e fazia uso do lencinho. Ao tossir era educada, colocando uma das mãos espalmada sobre a boca. Aquela cena podia ser normal desde que não se desse tanta importância em observar o que a jovem estava fazendo, e o pior, o que ainda estaria por fazer.
Acompanhando seus movimentos fui ficando apreensivo e pensava coisas... Cogitava mentalmente as probabilidades existentes dela fazer algo que eu relutava para que não acontecesse... Até que ela fez: enfiou sua mão (que minutos antes servira de anteparo para tosse) no saco de pães arrancando com força um francesinho esbranquiçado que rapidamente foi fendido, amanteigado e lançado na chapa para fritar. E logo pensei... Fritar bactérias...
Noutra ocasião fui assaltado pela fome das 22 horas e resolvendo sair em busca de alimento sob forte influência da cultura americana, decidi, então, encarar um cachorro-quente daqueles que alimentam até jibóia. Encontrada a lanchonete móvel, tive que entrar na fila, e como não havia nada mais a fazer, passei a observar o “dogueiro” que montava o lanche. Pude perceber que era um sujeito falante e descontraído; vestia um avental e usava um gorro. No entanto, faltava-lhe um acessório indispensável, a máscara. Pois ele falava, falava, falava e gargalhava “salivadamente” sobre os ingredientes que receberiam um “tempero” de bactérias tornando o lanche muito, muito “especial”...
Minha chatice parece não ter limites. Outro dia, fui a uma lanchonete fazer uma boquinha e pareceu-me que o seu proprietário estava em contenção de gastos. Observei que a mesma funcionária que servia os alimentos também era quem recebia o dinheiro. Em determinado momento recebeu R$ 5, voltou R$ 1 e mais algumas moedinhas de troco, logo após, colocou pedaços de abacaxi com cubos de gelo dentro do liquidificador preparando um “sucão” super bacterizado...
Nesse meu estado chatológico também deparei com alguns restaurantes com pistas self service sem proteção contra o festival de cuspe; afinal, as pessoas ficam quase sempre conversando bem na direção do alimento enquanto escolhem o que vão comer. Quando olham a comida elas salivam, e quando falam cospem sem perceber.
Já que é quase impossível mudar o que aí está, decidi fazer como a maioria e parar de observar; não vendo para não sentir; afastando de vez a chatologia, aprendendo que: “quem muito escolhe, pouco come”.
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e do Comércio da Franca
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