Justificando a incompetência


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O jornal gaúcho O Exclusivo, em sua página na Internet, voltou a comentar em 17 de agosto a concorrência desleal aparentemente cometida pelas fábricas da Índia e desta vez, também, do Egito. O diretor Cassel, da Schutz, deu entrevista ao jornal sobre a sua visita à Índia, onde visitou duas fábricas pequenas, que fornecem à cadeia de lojas Catwalk e com as quais ele quis formar parceria, mas desistiu depois que viu as condições precárias em que os calçados eram produzidos. Deduziu, a partir destas observações, que toda a indústria de calçados indiana é assim... Já escrevi antes sobre a precipitação de julgamento sobre a enorme indústria de calçados na Índia, maior que a brasileira e enormemente pulverizada entre as empresas de porte realmente grande e micro-micro-empresas familiares. O jornal também entrevistou o conhecido professor Paulo Humann, que atua no Rio Grande do Sul e que também viajou – por conta de um fabricante de adesivos – para Alexandria, no Egito, onde visitou duas fábricas e também achou as condições de trabalho degradantes. Até aí nada de novo. Condições subumanas e degradantes de operários já foram encontradas e descritas numerosas vezes no mundo inteiro e não somente na indústria de calçados. Além disso também não é bom atirar pedras se temos telhados de vidro. Na época em que, por contrato com a Fiemg – Instituto Euvaldo Lodi – prestei assistência para micro e pequenas empresas, encontrei em Nova Serrana uma cuja seção de acabamento do calçado ficava na área do tanque em que se lavava a roupa da família e onde, às vezes, por descuido, a água da roupa respingava sobre o calçado antes da embalagem. Quem já visitou “fábricas” de Caruaru e Timbaúba, em Pernambuco, poderia tirar fotografias iguais às da Índia. Há empresas ¬m que é preciso coragem para entrar! Ainda bem que não veio nenhum indiano ao Brasil, para botar a boca no trombone! Tudo bem, condições degradantes, fábricas miseráveis etc., mas disso deduzir que tira competitividade ou deixa o empresário brasileiro em desvantagem é muita demagogia ou ignorância. Das pessoas de quem partem as observações que citei ao início deste texto poder-se-ia esperar maior discernimento. O que nos tira do mercado internacional são impostos elevados, a famigerada CLT, cuja reforma será feita num futuro incerto, pois, com certeza, não será feita com um presidente que não fez nada mais na vida do que organizar sindicatos e greves. O que nos tira competitividade é uma enorme burocracia, portos congestionados, logística cara – o famoso custo Brasil. Era de se esperar do diretor Cassel, que apontasse os impostos embutidos no valor de 39,6 % no custo do calçado, que vai apontar (dependendo do cálculo) os 50 e até 85% de acréscimo sobre a folha de pagamento, o juro alto – medalha de ouro – campeão mundial, a defasagem cambial com um governo que prefere exportar commodities e com isso exporta os empregos no lugar dos manufaturados e assim por diante. O senhor não deveria perder tempo falando sobre operários que costuram calçados sentados no chão. Será que nas fábricas dele a planilha de custos, no tocante a mão-de-obra, ultrapassa 15%? Tenho minhas dúvidas. Os operários sentados no chão não são a verdadeira ameaça à nossa indústria. Quanto ao professor Humann, que talvez não tenha acesso aos dados mais precisos e se deixa levar pela emoção em lugar de raciocinar friamente, pode ser perdoado. Há muita coisa que devemos corrigir na nossa roça antes de nos preocuparmos com vizinhos. Que tal diminuir desperdícios? Que tal sermos mais criativos? Que tal sermos mais agressivos comercialmente? Há muita coisa que deve e pode ser feita, mas, certamente, procurar vilões de fora e culpá-los pelos resultados da nossa própria ineficiência é uma das últimas ações a serem empreendidas. EXEMPLO A SEGUIR Associação espanhola de indústrias de Elche solicitou aos seus membros para abrirem suas empresas aos estudantes que começam estudos nos novos cursos universitários, para ganharem experiência. A Universidad del Miguel Hernández, local, está começando novos cursos em desenho de calçado e gerenciamento de indústrias ao início do novo letivo, em outubro. O curso tem 250 horas de ensino formal, mas exige dos estudantes 350 horas de estágio prático dentro da empresas. A associação afirma que o resultado desta atividade colocará nas indústrias jovens plenamente preparados para entrar nas equipes de gerenciamento, seja no desenho, administração ou gerenciamento de vendas. Não é este o exemplo a seguir? LÁ, COMO CÁ Briga de políticos no México. Produtores de calçados da província de Guajanuto reagiram mal à fala do diretor do Instituto Nacional de Competitividade, que comentou sobre os exportadores asiáticos “serem melhores que os locais”. Completou dizendo que “ao invés de reclamar maior proteção contra os produtos importados e o fechamento de fronteiras para a importação, deveriam melhorar os seus serviços e suas ofertas. Os políticos locais partiram em defesa dos produtores locais e acusaram os importadores de buscarem os produtos orientais sob a proteção da ALCA, via Estados Unidos. Como se vê, os problemas são iguais por toda parte. A única defesa dos interesses prejudicados está em melhores produtos e melhores serviços. GUERREAR EXIGE PREPARO Chineses se preparam para jogar duro no mercado de calçados de segurança. Participaram de uma série de seminários para se atualizar com novos requerimentos de segurança da União Européia, principalmente na composição química dos couros e de materiais usados. Os seminários eram ministrados pela Intertek, companhia que testa e certifica os calçados. Os cursos têm sido ministrados em Dongguan e Qing Dao com a finalidade de adaptar os produtos para conseguirem a cobiçada marca CE. Zdenek Pracuch Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br

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