Presas e funcionários atacados pelo mesmo mal


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Quando se está diante de uma pessoa cujos passos são vigiados o tempo todo, logo é possível fazer alguma reflexão sobre o valor representado pela liberdade. Ana Paula Destro, 31, natural de Guará, tem cada movimento seguido pelos carcereiros que a vigiam, pelas presas que a cercam e pela própria consciência. Não vê os filhos, com idades entre 9 e 14 anos, há sete meses, desde que foi presa pela segunda vez por tráfico de drogas. "Não sou santa", diz ela. "Se fosse, não estaria aqui". A moça de fala tranqüila é o contrário do estereótipo que geralmente se tem de detentas que superlotam cadeias por aí. Corpo coberto por tatuagens, pouco acima do peso, cabelos crespos presos em coque, o rosto marcado por erupções, doente renal, pedras na vesícula. Ana Paula estudou até concluir o ensino médio; considera-se inteligente. Dentro do espaço dividido com outras 17 presas no xadrez 3, o tempo passa em meios às cartas que recebe e as que escreve. "Eu não tenho dinheiro, advogado. Estou aqui esquecida. Se tudo der certo, saio até 2014. Quando sair, gostaria de ter uma chance de trabalho, de viver na sociedade, coisa que não tive", disse ela. "Estou aqui por tráfico. Quando saí, da primeira vez, achei que nunca mais iria voltar. Mas o senhor deve ser pai e pode imaginar o que é ver um filho com fome. Não tive escolha". O depoimento de Ana Paula, que encerra esta série de reportagens sobre a Cadeia de Batatais, publicada durante três domingos, talvez tenha sido o mais comovente, o mais pungente. Como não custa salientar, aos mais desavisados é sempre oportuno lembrar que não se trata de humanizar o complexo mundo carcerário, suas limitações e tragédias diárias. A intenção é levantar algum questionamento sobre como o Estado trata aqueles que estão sob sua guarda. A moça que gosta de ler livros de romance no melhor estilo água com açúcar, queixa-se por não ter sabonete para tomar banho e por não conseguir se livrar da sarna que não acaba nunca. "É um ambiente que não deveria existir. Por mais que o senhor queira entender isso aqui, não vai conseguir. Assim vou sobrevivendo". DO OUTRO LADO Passada a porta que fica trancada separando os corredores da entrada da cadeia, o mundo é outro. Ainda assim, as reclamações, desta vez de quem trabalha, são muitas; algumas compreensíveis. Os carcereiros, 14 ao todo, têm uma rotina de estresse absoluto. Longe de ser um prédio que ofereça plenas condições de segurança, a Cadeia Pública de Batatais está localizada aos fundos de um distrito policial. O aspecto é ruim. Móveis estragados, entulho amontoado na entrada, uma viatura arreada no pátio. O outro carro, próprio para transportar as presas, é uma ofensa à dignidade humana. Possui dois cubículos na parte de trás com 50 centímetros de largura. Não há ventilação. Dentro, só escuridão. "Como você leva uma presa grávida num espaço desses. É muito grave. Não poderíamos nunca ter um carro desses", disse um carcereiro. Outro se voltou para as próprias condições de trabalho: "Aqui somos tão presos como elas. Não temos folga e, quando temos, podemos ser chamados a qualquer momento. Basta uma presa passar mal. Não desligamos nunca", disse o funcionário com 15 anos de serviço.

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