Acelerador de partículas


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Um flash quase imperceptível, em uma tela em preto e branco. Foi esse o sinal de que estava dada a partida para o experimento mais ambicioso da histórica da física. Cientistas do mundo inteiro reunidos na fronteira entre a Suíça e a França celebraram na última quarta-feira a entrada em operação do superacelerador de partículas que promete desvendar grandes segredos do Universo, como a origem da massa e a misteriosa matéria escura. Depois de 14 anos de construção e pesquisa e um investimento de quase US$ 10 bilhões, o primeiro acionamento do superacelerador LHC (Grande Colisor de Hádrons, na sigla em inglês) foi considerado um sucesso. Para alívio dos mais de 8 mil cientistas de 80 países envolvidos no projeto, o LHC passou no primeiro teste. “O primeiro desafio técnico foi superado’’, disse Robert Aymar, diretor-geral do Cern (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), que abriga o LHC. “Tudo funcionou como um relógio”, disse. Um clima de tensão e enorme expectativa antecedeu o primeiro teste, quando pontualmente às 9h30 da quarta-feira (4h30 de Brasília), o primeiro feixe de prótons (núcleos de átomos de hidrogênio) foi lançado no sentido horário, quase à velocidade da luz, pelo anel de 27 quilômetros do LHC. Após a contagem regressiva feita pelo líder do projeto, Lyn Evans, um rápido flash mostrado no canto de um telão comprovou o lançamento dos prótons no túnel. Muitos jornalistas na sala de controle do Cern, esperando algo mais dramático, só perceberam que o teste estava em marcha devido à barulhenta comemoração dos pesquisadores. Apesar da velocidade, o primeiro feixe de prótons levou 58 minutos para dar uma volta completa no superacelerador. Isso porque sua passagem precisou ser controlada e aconteceu por etapas. Cada uma das oito seções do anel precisou ser testada individualmente. O primeiro feixe que deu a volta completa no túnel foi disparado às 10h28 (5h28 em Brasília). ‘Foi como um gol em Copa do Mundo’’, disse o fluminense Dilson Damião, doutorando da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Ele é um dos quase 70 brasileiros que participam do projeto, e estava no auditório do Cern, no início do experimento. FALHA NA GELADEIRA Mas a estréia do LHC não esteve totalmente livre de problemas. Uma falha no sistema criogênico levou ao aumento da temperatura e forçou a interrupção do experimento, antes de ser corrigida. Para o funcionamento perfeito dos poderosos ímãs supercondutores, que aceleram os prótons, o LHC precisa estar a -271,3 graus. Em algumas das tentativas ocorreram pequenos “acidentes”, quando o feixe de prótons colidia ou com partículas de ar residual ou com partes de um dos quatro detectores. Quando isso acontecia, o detector era “iluminado” pelas partículas produzidas pelo choque. O fato de os detectores perceberem as partículas geradas na colisão, na verdade, deixou os cientistas felizes. Isso indica que eles estão funcionando. “É esperado que esse tipo de coisa aconteça muito no início’’, explicou o brasileiro Denis Damázio, do Laboratório Nacional de Brookhaven (EUA). Outro brasileiro, Sérgio Novaes, do Instituto de Física Teórica da Unesp, resumiu assim o teste: “Fizeram um feixe da espessura de um fio de cabelo viajar à velocidade da luz perfeitamente alinhado. Não há nada mais complexo que isso’’. FORÇA TOTAL Nas próximas semanas, à medida que os operadores ganharem confiança no funcionamento do LHC, a aceleração será intensificada a fim de provocar o choque entre prótons, que é o objetivo do projeto. Os cientistas esperam que as violentas colisões sejam capazes de destruir os prótons e usar sua enorme energia para criar novas partículas. Entre os resultados mais aguardados está a descoberta do bóson de Higgs, a “partícula de Deus”, que daria massa a todas as demais. A descoberta, que pode levar até três anos devido à complexidade do processamento dos dados coletados, confirmaria o Modelo Padrão, teoria que explica o mundo microscópico. Para os cientistas envolvidos no projeto, entretanto, sejam quais forem as suas descobertas, o LHC representará uma revolução para a física. “Se o Modelo Padrão não for confirmado acho que teremos um resultado ainda mais fascinante, pois será preciso buscar outros para explicar o Universo’’, disse o alemão Karl Jacobs, físico do Atlas, o maior dos quatro detectores do LHC. O Nobel de física italiano Carlo Rubbia lembrou que 95% da composição do Universo continua desconhecida. “Agora temos o instrumento para transformar a teoria filosófica do Big Bang em física experimental, o que é absolutamente fantástico’’, disse.

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