<p>Em visita ao Comércio na última semana, Abib Salim Cury, sócio-proprietário e ex-reitor da Universidade de Franca, trouxe boas notícias. O empresário, que também preside a Associação Nacional das Universidades Particulares, veio acompanhado do filho Clovis Cury, reitor da Unifran, para comemorar a aprovação técnica do curso de medicina para o campus. Abib Cury, 73, natural de Sertãozinho, é conversador e dono de forte personalidade. Mantém o jeitão de professor e não fica em cima do muro. Fala com propriedade sobre a educação brasileira. </p><p> <br />Além de liderar a associação que reúne universidades particulares de todo o País, ele já esteve à frente da Unifran e foi secretário municipal de Educação de Ribeirão Preto, entre janeiro de 2005 e dezembro de 2006. Em 26 minutos de entrevista, o professor foi firme nas respostas às perguntas que muitas vezes nem esperava chegar ao fim. “Adivinhava” o assunto e já respondia. Criticou com veemência os ensinos fundamental e médio no Brasil e a falta de investimentos na área. </p><p>Defendeu a capacitação dos professores para gestão de escolas e a necessidade de atualização mais constante do material didático. Falou também sobre a chegada do curso de medicina no campus da Unifran, que dá como certa para o início do ano que vem, e da redução da vagas no curso de direito da universidade, que para ele foi “pura pirotecnia” do MEC.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - A Unifran anunciou que seu curso de medicina foi finalmente aprovado pelo MEC. Quando ele chega a Franca?<br />Abib Salim Cury -</strong> Nossa previsão e nosso esforço é para que até o final do ano a gente consiga autorização para isso. Ainda temos algum trabalho a ser feito junto ao Conselho Nacional de Medicina, que eu entendo ser um trabalho mais político. Tecnicamente, o MEC já nos aprovou, com a nota máxima, 5, através da comissão que esteve aqui. Assim, um passo muito grande foi dado. Fica muito difícil a gente aceitar agora que o curso seja negado apenas por problemas políticos, problemas de injunções da classe profissional, que acha que este País não precisa mais de médico. Será que é verdade? Se há um concurso para médicos plantonistas aqui e em Ribeirão Preto com 50 vagas, por exemplo, aparecem apenas cinco candidatos, porque não há. Agora, a gente se propõe, faz um investimento grande, tira a nota máxima e ainda fica dependendo de assuntos políticos.<br /></p><p><strong>Comércio - O processo para trazer o curso de medicina começou em 2005. Quais foram os problemas enfrentados nesses três anos?<br />Abib - </strong>O problema é que não anda. É mais ou menos como o nosso Judiciário. Às vezes, o juiz fica sentado em cima do processo e fala que são mil processos e que não dá tempo para despachar todos. E vai levando. Aí começa toda uma preparação para impedir, uma pressão junto ao Ministério, que aceita. Sai uma portaria dizendo que você precisa de um monte de coisas. Você se prepara, de repente eles sentem que aquela portaria não bloqueia nada porque o ensino particular investe e eles mudam a portaria para apertar mais. E assim a gente veio durante todos esses anos até que chegamos agora a sermos finalmente avaliados.<br /><br /><strong>Comércio - O que falta agora?<br />Abib -</strong> Falta chegar a portaria do ministro autorizando o início do curso e acho que chegaremos lá. Com a ajuda da cidade, que precisa gritar politicamente que quer.<br /><br /><strong>Comércio - Aqui em Franca vocês enfrentam a resistência da classe médica?<br />Abib -</strong> Tem alguma coisa assim... É o mesmo problema da OAB. Você sabe quantos bacharéis formados em direito há no Brasil sem poder exercer a profissão? São 2,5 milhões, que já estão se arregimentando para tentar mudar essa brincadeira. Não quero dizer que não deva haver um exame da Ordem, mas a avaliação deve se mudada para dar mais oportunidade a todos. O jovem entra numa escola de direito autorizada pelo Ministério da Educação, estuda cinco anos, recebe o diploma da universidade e não pode exercer a profissão? O que é isso? Isso vai contra a Constituição Federal!<br /><br /><strong>Comércio - Por falar no assunto, a Unifran enfrentou problemas em seu curso de direito há pouco tempo...<br />Abib -</strong> Não teve nenhum problema com o curso de direito. Aquilo é o que eu chamo de pirotecnia. Sabe por quê? Porque houve uma fase em que a gente tinha muito aluno de direito, então a gente pedia 500 vagas. Como tem diminuído o número de alunos, hoje a gente não consegue colocar nos nossos cursos mais do que 200 e poucos. Aí, o MEC chegou para mim e disse: ‘olha, você vai ter 220 vagas agora porque nós vamos cortar essas outras todas’. Pois bem, tudo bem... Pode anunciar, mas não mudou nada. Porém, ele precisava fazer isso para ir para a mídia. Todas as coisas são feitas desse jeito, infelizmente, sem diálogo com a iniciativa privada. Se ele chega para mim e fala que precisa diminuir, talvez eu tivesse cortado mais do que ele fez na pirotecnia.<br /></p><p><strong>Comércio - Vamos mudar de assunto agora e falar sobre o ensino brasileiro...<br />Abib -</strong> Estava vindo para cá agora e ouvi o presidente Lula dizer que o dinheiro do petróleo do pré-sal (uma camada de reservatórios em uma camada de sal que vai do litoral do Espírito Santo a Santa Catarina, ao longo de 800 quilômetros descoberta em novembro do ano passado e cuja exploração começou a ser discutida este mês) vai para a educação. Tomara! Porque até agora não tem nada. Fui secretário da Educação em Ribeirão Preto. Uma experiência muito triste quanto ao ensino fundamental. E é a mesma coisa aqui em Franca. Não é que os prefeitos sejam culpados, não tem política, não tem dinheiro para se fazer o que este País precisa. Dizem que os alunos que estudam na escola particular são melhores do que os que estudam na pública e isso é uma verdade. Nós da universidade recebemos esses alunos e sabemos disso. Mas por que isso? Porque não se investe no ensino fundamental. Você pega uma professora, nomeada pelo prefeito para ser diretora de uma escola com 2 mil alunos. Ela não está preparada e ela não é culpada. Elas são até abnegadas, mas não estão preparadas para a gestão, então nós tínhamos que investir muito nesse pessoal.<br /></p><p><strong>Comércio - A falta de dinheiro, então, seria especialmente para a capacitação dos professores?<br />Abib - </strong>Sem capacitação não tem futuro e é nesta situação que nós estamos. Não temos futuro na educação. Mesmo o ensino superior brasileiro é ruim. Não pense que escapam disso as escolas oficiais, onde só tem doutor... Como professor titular aposentado da USP, eu sei o que ocorre lá. Doutor não dá aula. Doutor quer fazer pesquisa. No fim quem dá aula são os assistentes e você tem uma queda na qualidade do ensino. E a tese do ministro da Educação hoje é que temos que ter doutores, doutores e doutores. É assim... Não há legislação, não há controle de nada e nós temos esse caos no ensino brasileiro no total. Muito mais grave no ensino fundamental e médio.<br /></p><p><strong>Comércio - Quais são os problemas pontuais nos ensinos fundamental e médio que seriam resolvidos com os investimentos?<br />Abib - </strong>Primeiro a preparação para esse pessoal. Em segundo: tempo integral. Esse País precisa botar as crianças para estudar em tempo integral nas escolas. E hoje o que se faz é aumentar o número de crianças aqui no município, aumentar o número de períodos e diminuir o tempo de cada um deles... Não dá. Não é possível você efetivamente formar na hora certa, na hora que a criança precisa aprender. Temos que caminhar para isso e são coisas que são possíveis. Outra coisa é preparar também o material didático. Não é de se pensar que o mundo vai mudando, as informações vão mudando. Só que isso (a educação no Brasil) não acompanha. Ainda estamos lá, no giz, na lousa, não há informática para todas as crianças.<br /></p><p><strong>Comércio - Qual é a participação do município, do Estado e governo federal na educação? E qual deveria ser?<br />Abib -</strong> É uma participação que está na Constituição Federal. O município tem que gastar 25% de seus impostos na educação. O que não é suficiente para ele construir, pagar o corpo docente e melhorar uma série de coisas. Você calcula municípios pequenos, que têm uma arrecadação pequena, 25% não dá para nada... O Estado também tem que ajudar. E a União, que é a grande culpada de tudo isso, deveria procurar gerir. Eles não assumem nada. Eles dão lá um dinheiro pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) para você fazer uma escola e outras coisas, mas tudo de forma esparsa, quando haveria de ser uma responsabilidade. Eu tenho a impressão de que Franca tem o mesmo problema que Ribeirão, como têm todas as cidades: a municipalização do ensino. Que brincadeira, né? Ribeirão tem 50 mil alunos na prefeitura e tem outros 70 mil no Estado e acontece que o Estado e o Município não se falam. Cada um tem um currículo, cada um tem uma forma de ensinar. Se conseguimos melhorar o ensino da Prefeitura, o que você faz com os alunos que estão na rede do Estado? Essa diferença, quando chega lá no fim, no vestibular, ou quando não é profissionalizada, começa a criar distorções. Coisa que não deveria existir. É porque não há responsabilidade com a gestão da Educação. E os governos não assumem.<br /></p><p><strong>Comércio - E o ProUni, o que o senhor acha?<br />Abib - </strong>O ProUni foi uma forma de o governo, com a nossa aprovação e com a nossa aceitação, poder atender uma população carente. Só entra na universidade a família que tiver ganhando menos de um salário mínimo. Eventualmente tem 50% para quem ganhar acima disso, até três salários. E a gente recebe esses alunos, que na verdade são alunos com dificuldades. Temos grandes revelações, que às vezes vêm de alunos do ProUni, que são excelentes. Ou porque o menino foi autodidata ou teve curiosidade. Ele chega bem, mas a grande maioria não. A gente tem que preparar os estudantes e isso tudo é difícil. Isso tudo custa.<br /></p><p><strong>Comércio - Uma das recentes polêmicas na área da educação foi a reserva de vagas para negros e índios. Como as universidades particulares receberam isso?<br />Abib -</strong> Acho que isso é mais problema do que solução. Acho que está mais para discriminação do que para a solução do problema. É muito difícil determinar essas vagas. Felizmente no Brasil houve essa mistura racial. Só que a lei não diz quem é negro e quanto precisa para ser. E aí dá um monte de aberrações. Não seria muito mais bonito se este País se preocupasse em investir, inclusive nesse pessoal, que precisa, para que eles estivessem preparados para entrar? Para que nós pudéssemos aumentar o nosso número de vagas? Ou então não teremos País.<br /></p><p><strong>Comércio - Falando em futuro, o que o senhor acha que podemos esperar para a educação?<br />Abib -</strong> Acho que ela depende do pré-sal e da Petrobras. Pelo menos é o que o presidente falou hoje (risos). Só que não falou quanto, nem como ou quando. <br /></p>
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