Deixe fazer, deixe passar


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Uma célebre frase bastante difundida no final do século XVII era “laissez faire, laissez passer”, algo como “deixe fazer, deixe passar”. Significa, na essência, um princípio que expressa liberdade criado por pensadores fisiocratas (fisio=natureza; cracia=poder). Trazendo ao contemporâneo e à realidade local, sem levar em conta os aspectos econômicos; o princípio pode servir de orientação sobre como se comportar os que escolheram permanecer na condição de “comuns”, enquanto outros buscam posição de destaque (politicamente) apresentando seus nomes à apreciação de seus concidadãos na conquista dos votos suficientes para ganhar um poder que os elevaria à qualidade de “excelências” e de “nobres”, caso sejam eleitos. Tentar entender as verdadeiras motivações que levam as pessoas a se candidatarem não é a intenção aqui, pois o direito a isto é legítimo e merece total respeito. Mas, a propósito, consideremos algumas: ambição certamente é uma delas; a vaidade outra; a ideologia utópica que ainda existe abarcando muitas mentes. Também não se pode ignorar ainda aquela outra, a da ingenuidade dos “sem-chances” que, encorajados e persuadidos de possível vitória sonham acordados. A tendência agora, é que se intensifique cada vez mais a disputa ficando nítida a fronteira imaginária existente neste período - de um lado cidadãos-candidatos e, do outro, cidadãos-eleitores, alvos dessa sanha pelo voto que elege. Observa-se nas propagandas eleitorais que elas muitas vezes levam à indignação os mais atentos eleitores, com a falta de propostas lúcidas de alguns candidatos durante o festival de absurdidades no horário eleitoral gratuito. E para não se indignar e não ter ofendida a inteligência por algumas figuras até caricatas da sociedade francana, o jeito é “deixar fazer”, seguindo o princípio da “liberdade” vislumbrada pelos fisiocratas. Isto não significa abandonar a capacidade de criticidade, ou do direito de se revoltar com o despreparo de alguns; da desfaçatez e dissimulação de outros; e também dos “netos” de Gepeto que ainda não aprenderam que mentira é um bicho de perna-curta, de rabo grande e muito feio. Então, “deixe fazer”, proporcionando o aval representativo, pois é este o modelo que se tem disponível para aos postulantes em governar a cidade. A idéia de “laissez faire” faz muito sentido quando evolui o raciocínio ao entendimento de que muita coisa está arraigada a séculos e que ganharam vícios institucionais impossíveis de serem revertidos e removidos, portanto, a organização e composição de um determinado poder necessita de pessoas para geri-lo; é aí que surge o eleitor, elegendo alguém que na maioria dos casos torna-se um eleito “moldável”, aberto para “muitas” coisas, fechado para “outras”; mas o que importa na verdade é fazer a parte e após eleger, nada de ser eleitor pesaroso sofrendo de remorso pós-voto. De quatro em quatro anos, o jeito é andar de cabeça erguida, sem sofrimento, relaxar e permitir o “deixe fazer”, e a recompensa um dia virá; e virá através do “laissez passer”, considerando agora o princípio fisiocrata do “deixe passar” - a lei natural reguladora do poder com liberdade, uma contrapartida oferecida, o ápice do acontecimento que resigna o eleitor que é o de saber que além do poder de “deixar fazer” (laissez faire) também o tem o de “deixar passar” (laissez passer) reduzindo pessoas à História. Sem muitos desgastes, seria um bom jeito de se comportar e em saber que atores políticos que dominaram; inevitavelmente, um dia, serão apenas espectros do passado... Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e do Comércio da Franca

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