Eleitor está no paraíso


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Pena que a situação atual esteja na reta final e dure tão pouco agora. Esse estado de benesses está com os dias contados. Faltam menos de trinta dias para a eleição. O eleitorado anda contagiado pelo bom humor dos candidatos e, mais ainda, pela vontade de trabalhar deles. Nesta época de campanha, o eleitor é reconhecido como indivíduo, como cidadão, cheio de direitos. Em qualquer lugar, a qualquer hora, pode-se encontrar um postulante a um cargo público através do voto. Não importa a aspiração: vereador ou prefeito? No lugar de aspiração, cabe melhor aqui a palavra inspiração. Só mesmo o erário para estimular tanto os candidatos. Entusiasmados, eles estão dispostos a se sacrificar pelo bem-estar do eleitor, da eleitora e da família deles também. Por falar em erário, essa parece ser a palavra preferida dos políticos. Eles trocam as bolas, caem na redundância, e se dizem preocupadíssimos com o ‘erário público’. Possivelmente não sabem que o vocábulo em si mesmo já quer dizer dinheiro público. Por isso, tem dono. É do povo. Deve ser usado unicamente em benefício da população. O erário não é privado. As promessas dos candidatos provocam a felicidade geral e total do eleitor. Aliás, essa sensação de elevação, de se sentir no paraíso, foi até constatada através de pesquisa. Parece que todo mundo está no ar. Acredita na conversa de campanha. Acha possível o discurso transformar-se em realidade. Desde a posse, em 2004, o prefeito já se mostrava contaminado pelo otimismo. Seus discursos sempre foram entremeados de palavras sugestivas. Finalmente agora ele conseguiu contagiar grande parte da ex-pessimista população. A mensagem de livros de auto-ajuda, de palestras motivadoras ou até mesmo de vídeos sobre o poder da força de vontade, tudo isso valeu a pena. Muitos munícipes acabaram por entender o recado. Não estão; são felizes! Não tem segredo. A capacidade de cada pessoa é imensa. Tudo é uma questão de foco. O segredo, na verdade, está ao alcance de quem quer. Até mesmo para conseguir aglutinar dez legendas partidárias numa coligação ímpar e inusitada. Ainda por cima, sem promessa nenhuma de cargos ou secretarias futuras, conforme testemunho público do próprio prefeito. O que importa é ser candidato único, para depois cuidar sozinho da felicidade do povo. Com isso, mais uma vez, a democracia perde. Como também foi derrotada na época em que se aprovou a possibilidade de reeleição para o poder Executivo. Para comprovar isso, já que os números não mentem, há 135 cidades no País com um único candidato a prefeito. Em todas elas, dia 5 de outubro será apenas para homologar o segundo mandato. Não há estimativa quanto às cidades em que as coligações de partidos afastaram os concorrentes mais diretos à Prefeitura. Na prática, essas localidades também passaram a ter um candidato só. A concorrência deixou de existir. O duro vai ser se o segundo mandato virar um inferno zodiacal. Mesmo sendo de áreas afins, os conselhos de auto-ajuda poderão não surtir o efeito desejado. Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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