Tatuagens pelo corpo são marcas quase obrigatórias entre detentos. Seja para não se esquecer de quem ficou do lado de fora, dos filhos ou para fazer apologias religiosas, qualquer coisa vale. A matéria-prima necessária é barata: tinta nanquim, um corante de roupas, e agulhas. Molha-se a ponta que é levada direto à pele. É um verde-escuro característico que vai dando forma a nomes, corações, estrelas.
Entre as presas na Cadeia Feminina de Batatais são poucas as que chegam com alguma marca. Na maior parte das vezes, os desenhos cheios de simbologia são feitos ali mesmo, nas celas.
Mas não são apenas as tatuagens toscas e verdes que homogeneizam a população carcerária dessa unidade. Chama a atenção a quantidade de filhos que mulheres quase sempre muito jovens deixaram para parentes, pais e ex-maridos cuidarem. O discurso inflamado contra a estrutura penitenciária estatal também está na ponta da língua.
Flávia Fernanda Ferreira, 30, não vê os quatro rebentos que moram em Nuporanga há um ano e dois meses, tempo que está encarcerada em Batatais. Já tinha sido presa e condenada quatro anos atrás e voltou à cadeia após roubar roupas e um celular no centro de Orlândia, segundo ela, sob o efeito de crack.
Ao seu lado, mais jovem, Priscila Maira, 20, de São Joaquim da Barra, grávida, queixa-se das condições da cadeia e reivindica acesso a exames pré-natal (o exame já havia sido agendado para o dia seguinte à reportagem). Priscila está no nono mês de gravidez. Na cidade onde mora, deixou uma filha aos cuidados da avó. O aniversário de três anos da menina foi dia 14.
Na barriga, Maria Júlia apresenta seus chutes. O bebê, garante a mãe, ajuda a suportar a pressão de viver como um “bicho enjaulado”. O pai da criança também está preso.
Não se trata de querer humanizar um espaço que por si já é excessivamente desumano, muito menos tratar essas mulheres como vítimas, posto que estão ali, salvo possíveis enganos, por crimes que cometeram.
Mas ao ouvi-las, como fez a reportagem, é permitido imaginar a dureza de uma realidade que se apresenta na forma de grades, de ameaças constantes. Dia após dia, trancafiadas o tempo todo.
Flávia disse não se lembrar mais dos rostos de seus filhos. Para ela, qualquer situação anormal gera tumulto nos xadrezes, ainda que por tumulto sejam entendidas pequenas discussões. “Já teve muita coisa brava aqui, mas hoje a coletividade tá da hora (sic). Tem que ser assim porque o lugar não é fácil de viver, não”, disse ela.
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No início de agosto, quando a Polícia Civil decretou greve de um dia, a visita na quarta-feira foi suspensa. Para as presas, qualquer sinal de que não receberão ninguém é um pesadelo. Tanto pela proximidade quanto pela oportunidade de receberem artigos de higiene, beleza, alimentos.
“Naquela semana teve mulher que cortou camiseta para poder usar no lugar de absorvente, moço”, disse Flávia. “Ninguém nega que está aqui pagando pelo que fez, mas ninguém é cachorro. O Estado prende, mas não olha por ninguém aqui. Não conseguimos falar com juiz, com promotor, com delegado. Vai ficando um depósito de presa”.
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