<p>A aposentadoria, para a maioria absoluta dos trabalhadores, em qualquer parte do mundo, é um dos momentos mais aguardados da vida. Depois de contribuir com sua energia física e mental, com seu talento e disposição durante anos, essas pessoas não vêem o momento de chegar o tão sonhado dia de carimbar a carteira profissional e despedir-se dos colegas. Daí para frente não terá que pedir folga para viajar, não haverá mais horário para acordar e a pescaria poderá ser na segunda. Esse pode ser o sonho de muita gente, mas, definitivamente, não é o do primeiro-sargento Ismael Alonso Gomes. </p><p>No Corpo de Bombeiros de Franca há 26 anos, o sargento Ismael, como é conhecido, terá que se aposentar compulsoriamente no início do ano que vem, quando chegar aos 56 de idade, tempo-limite estabelecido pela Polícia Militar paulista para a graduação que ocupa. A imposição, como ele disse, está doendo nos ossos. E quem o conhece sabe que a expressão não é exagero, tanto que há 12 anos já poderia ter saído, coisa que não fez por não conseguir se ver longe do trabalho. “Quando venho para cá, não venho para trabalhar. É para encontrar os companheiros e servir à comunidade. Não encaro como trabalho, encaro como realização”. </p><p>Mesmo ainda faltando alguns meses para sua saída, não há conselho de amigo que o faça se acostumar à idéia de, um dia para o outro, não precisar atender emergências, resgatar vítimas, debelar incêndios e de correr para em 30 segundos estar dentro da viatura dos Bombeiros quando a sirene tocar. “A minha maior dor em não poder vir mais ao quartel e atender à comunidade é estar novo e com saúde. Agora que estou com tanta experiência, tenho que parar”.</p><p><br />Esta entrevista já estava planejada e tomou mais corpo com os pedidos de alguns dos subordinados do sargento Ismael. O que para eles parece ser uma homenagem da tropa a um superior que se despede, para a comunidade é um reconhecimento do profissionalismo deste bombeiro, que trabalhou para resgatar vidas em situações extremas, como no acidente de março na “curva da morte”, entre Pedregulho e Rifaina, com cinco mortos e dois feridos, ou em 2002, no mesmo lugar, com 20 estudantes mortos.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Por que o fato de se aposentar está incomodando tanto o senhor? <br />Sargento Ismael Alonso Gomes -</strong> É a idéia de ter que deixar de trabalhar. Eu gosto muito do que faço. É o fato de ter nascido para o trabalho, nascer para lidar com vidas. Para mim, é um prato cheio ter que sair para salvar alguém.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor tem pensado no que fará no dia seguinte à sua saída?<br />Sargento Ismael - </strong>Acho que o fato de estar novo e com saúde é a minha maior dor com relação a não poder vir mais para o quartel e servir à comunidade; isso está me matando. Se eu fosse um camarada acomodado, doente, impossibilitado, mas não. Não tem lugar que me segure, ocorrência que eu não vá. Incêndio, soterramento, busca de cadáver; é o que sei fazer. E ainda aplico a educação física no pessoal.<br /></p><p><strong>Comércio - Há quanto tempo está na Polícia Militar? Por onde já passou durante o tempo de serviço?<br />Sargento Ismael -</strong> Estou há 32 anos na Polícia Militar. Destes, 26 eu passei nos Bombeiros. Comecei trabalhando em Franca, depois fui para São Carlos, Araraquara, São Paulo. Aqui eu achei o local certo para mim. Aqui eu me concretizei. Quando venho para cá, não venho para trabalhar, mas para encontrar os amigos e servir à comunidade. Essa é a verdade.<br /></p><p><strong>Comércio - Há alguma área ou tipo de ocorrência em que o senhor tenha se especializado?<br />Sargento Ismael -</strong> Tenho todos os cursos voltados para os bombeiros, como mergulho, salvamento aquático, terrestre, motorista, salvamento em altura, produtos perigosos. Mas minha especialidade é água. Resgatar vítimas ou objetos em água.<br /></p><p><strong>Comércio - A impressão aparente que se tem é que o relacionamento dentro do quartel dos Bombeiros, até mesmo pela atividade que desempenham, é mais relaxado em comparação a outras unidades da polícia. <br />Sargento Ismael -</strong> Nós aqui obedecemos ao regulamento da PM, mas o trabalho em equipe e a necessidade de salvar vidas é o que torna a convivência melhor. O regulamento é importante e não é esquecido, mas trabalhamos como companheiros. Na hora do incêndio, esquecemos quem é soldado, sargento, tenente. A intenção é concluir o trabalho.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor sempre consegue ter idéia da gravidade da situação quando sai do quartel?<br />Sargento Ismael -</strong> Não. A noção exata só é conseguida quando se chega ao local da ocorrência.<br /></p><p><strong>Comércio - Como é lidar com o risco na maior parte das situações em que se envolve?<br />Sargento Ismael - </strong>Nós sempre estamos lidando com o risco, mas, dentro do nosso preparo, sabemos qual o nosso limite. Pela idade e pela graduação, sou o comandante de prontidão, responsável por perto de 20 bombeiros que estão de trabalho no dia. Mas dependendo da ocorrência, sendo de vulto, logo dou um jeito de entrar na viatura.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor trabalhou no acidente que em maio de 2002 matou 20 estudantes. Também em março, quando cinco pessoas morreram na “curva da morte”, perto de Pedregulho, o senhor participou do atendimento às vítimas. O senhor sempre teve estrutura emocional para lidar com situações como essas?<br />Sargento Ismael - </strong>No início da carreira há um período de adaptação psicológica, pessoal, muito grande. Apesar de ser o trabalho, não tem como ficar indiferente. Afogamento é muito difícil, pelo estado em que ficam as vítimas, por ter que mergulhar sem saber o que vai encontrar. As ocorrências que envolvem crianças são as que nos deixam mais abatidos; vítimas fatais em acidentes, presas entre ferragens, tendo criança é doloroso. Só que embalado pelo profissionalismo você acaba concluindo o atendimento. Hoje em dia é um pouco mais tranqüilo. A experiência conta muito, mas os mais novos sentem o choque. Agora que estou pronto, está na hora de ir embora.<br /></p><p><strong>Comércio - Quantas vezes o senhor se frustrou na carreira?<br />Sargento Ismael -</strong> Foram muitas, inúmeras. A ocorrência de salvamento em praias, por exemplo, são as que mais acontecem. Quando o sinal vem para um afogado pode ser tarde. Mesmo em casa, quando alguém se afoga, a pessoa que nos avisa não sabe dizer há quanto tempo o afogamento aconteceu. Até seis minutos é certeza que o ressuscitamento trará a pessoa de volta. Mas há casos em que isso não acontece. Quando não consigo resgatar alguém, um jovem, é como se perdesse o dia, como se tivesse sido derrotado.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor comentava o caso do menino Adriano, tirado quase sem vida de uma galeria. Esse foi um caso de realização profissional?<br />Sargento Ismael -</strong> Teve na piscina da Francana, em 1990, quando duas irmãs gêmeas começaram a se afogar. Consegui conduzir as duas para a beira. As duas se salvaram. Mas acho que o mais importante foi o salvamento do garoto Adriano, de 13 anos, tirado de uma galeria inundada, sem respiração, sem batimentos cardíacos. Recebeu os primeiros cuidados no local e depois na Santa Casa. Esse menino permaneceu em coma por uns três dias. Quando soube que ele voltou à vida, está vivo e sem seqüelas foi um grande momento da minha vida profissional. (este salvamento ocorreu próximo à região do Posto Galo Branco; não foi possível apurar a data. A galeria a que o sargento se refere tem perto de três metros de altura por dois de largura. Em sua base, uma tubulação com perto de 50 centímetros conduz a água para o Córrego Cubatão. Com a correnteza, encheu rapidamente e quando os bombeiros chegaram, o garoto estava boiando, imóvel e desacordado. Com uma corda presa à cintura, o sargento Ismael pulou na galeria e ergueu o adolescente, que foi puxado. Pensando que o próprio sargento também estava se afogando, os outros bombeiros o puxaram pela corda, fazendo que com ele subisse raspando o corpo e se ferindo na parede da galeria. Mesmo sem nenhum sinal vital, por insistência do sargento Ismael, Adriano foi atendido ainda no chão). <br /></p><p><strong>Comércio - A população reconhece esse esforço, seus treinamentos, suas horas de sono perdidas?<br />Sargento Ismael -</strong> Normalmente sim. Eu vejo que o reconhecimento é grande. Lidamos com vidas e isso mexe com todo mundo. A população sabe o valor do nosso trabalho.<br /></p><p><strong>Comércio - Correr riscos é inerente à profissão, mas houve alguma ocorrência que tenha assustado pela dimensão do problema?<br />Sargento Ismael -</strong> Tive três riscos iminentes de vida. Em Buritizal, no Rio do Carmo, fui engolido pela água, amarrado em uma corda, numa pesquisa de cadáver de um jovem de 22 anos. Ao fazer a travessia fui engolido para dentro de uma tubulação natural. Sumi e fiquei sem respirar por um bom tempo. Se não fosse minha tranqüilidade, paciência e resistência de passar pelo canal, teria morrido como aquele jovem, porque ele também tinha sido tragado pelo mesmo buraco. Eu me desvencilhei da corda e quando achei o caminho de saída acabei achando o corpo do rapaz. Outra vez, em um corte de árvores, sob chuva, quando fui recolher o material caiu um raio na árvore que estávamos cortando. Recebi parte da descarga, desmaiando no local. Até populares ajudaram a me salvar. Outra vez, num treino na piscina do quartel, calculei mal a distância para cair no poço (com seis metros de profundidade) e caí no raso. Corri o risco de me quebrar inteiro. Foi imprudência minha.<br /></p><p><strong>Comércio - Mesmo com tanta experiência, há algum trauma com relação a determinado tipo de atendimento?<br />Sargento Ismael -</strong> Depois de ocorrências graves, sobretudo afogados com vários dias, fica um certo trauma, um certo abatimento.<br /></p><p><strong>Comércio - Já era para o senhor ter se aposentado em 1996. Por que não quis ir para a inatividade, quando muita gente quer isso o quanto antes?<br />Sargento Ismael -</strong> Ah, rapaz! (olha para o alto e vai ficando emocionado). Fiquei porque o regime permitia e, principalmente, por gostar. Agora, enfim, vou sair. Já estou trabalhando isso na minha cabeça. Mas uma vez bombeiro, sempre bombeiro. O que eu sei é que não vou esquecer e acho que mesmo depois de sair qualquer ocorrência em que eu puder ajudar os companheiros vou querer ajudar.<br /></p><p><strong>Comércio - O seu pessoal gosta muito do senhor. A que atribui essa admiração?</strong><br /><strong>Sargento Ismael -</strong> Aqui somos uma equipe. No calor da ocorrência somos todos companheiros e isso vai criando a amizade. Entender a tropa e trabalhar mais próximo a todos gera essa amizade. No quartel o respeito é mútuo porque tem que ser assim pra preservar a ordem das coisas. É amizade com respeito.<br /></p><p><strong>Comércio - Qual é o castigo mais comum entre vocês?<br />Sargento Ismael -</strong> Uma forma de dar uma esfriada na cabeça do camarada é jogar no tanque. Quando chega, quando sai da unidade, quando é aniversário e quando dá uma pisada na bola vai para o tanque.<br /></p><p>Comércio - O senhor já perdeu amigos em atividade?<br />Sargento Ismael - Perdi um companheiro, que levou um tiro quando ainda estava no policiamento de rua. Mas tive amigos que sofreram acidentes em trabalho com gravidade. <br /></p><p><strong>Comércio - Em 11 de setembro de 2001, o mundo inteiro viu o que aconteceu com os bombeiros de Nova York. Diante de um perigo daquela proporção, o que leva o profissional a agir daquela maneira e a entrar em um lugar que sabe que vai desabar?<br />Sargento Ismael -</strong> Eu vi muitas reportagens, assisti a muitos programas sobre aquele dia. Quando todos correm de um acidente como aquele, mas nós corremos para ele. É o instinto natural querer correr do problema, mas nós fazemos o contrário. E dizer que não sente medo é mentira, porém, vamos perceber o risco que muitas vezes corremos depois que a situação está controlada. Emociona demais ver o que aconteceu a eles, quantos bombeiros morreram lá. Fico sentido e analisando se fosse um de nós naquele lugar. Morreram muitos bombeiros.<br /></p><p><strong>Comércio - E no ano passado, quando o avião da TAM se acidentou no aeroporto de Congonhas, qual a sensação ao ver um desastre como aquele sem poder ajudar?<br />Sargento Ismael -</strong> Ah, eu e mais dois ou três companheiros pedimos para o comando nos mandar para lá ajudar, mas a autorização não sai rápido, então não foi possível. A primeira reação é sempre querer estar no local. <br /><br /><strong>Comércio - O senhor desejaria ter ido mais longe na carreira?<br />Sargento Ismael -</strong> Se tivesse, seria bom, mas está dentro do esperado. Fiz tudo o que eu podia, todos os cursos ao meu alcance. Sinto-me feliz por estar saindo e deixando os companheiros. O melhor é que aposento com saúde; é o mais importante. Esse aí mesmo (nesse momento se aproxima o soldado Klaus, filho do sargento) eu lapidei desde o começo.<br />Comércio - Ele bate continência para o senhor? Chama de pai ou de sargento?<br />Sargento Ismael - Chama de sargento e bate continência, sim. Ele que não faça isso. É tanque. <br /></p>
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