Gostar de dicionários descortina mundos. A gente quase sempre se enriquece no caudal das páginas quando navega em busca de explicações. Não raro pesquisando uma coisa acha outra no oceano das letras. É um remeter de palavras entre si que não tem fim. Desses mergulhos voltamos acrescidos ao léxico que governa nossa fala em ondas alternadas que refluem como marés, ora na memória, ora no coração.
Procurava uma definição para frutos do mar e encontrei nos aurélios, houaiss e auletes algo como : “produtos comestíveis extraídos do mar, com exceção dos peixes”. Mas quem me deu a melhor definição foi um menino que respondeu num estalo: ‘bichos que tem esqueleto na parte de fora”. Fiquei besta com tamanha esperteza e agilidade mental.
O esqueleto do lado de fora, pois então. Cascas mineralizadas de várias formas e tamanhos, as conchas, as tais estruturas protetoras da carne de mexilhões, ostras, caranguejos, camarões, lagostas, vieiras, amêijoas, mariscos... E siris, matéria-prima para a receita deste domingo, quando o calor já se anuncia, ainda que distantes as férias de verão.
Vem da Bahia este jeito de fazer siri, embora os caiçaras garantam ser deles a patente, já que Oswald de Andrade replicou ao Conde D’Eu na festa da Princesa Isabel: “pinga de Paraty/ casquinha de siri/ fumo de Baependi:/ é bebê, comê, caí”; Com “a farinha de Suruí” engrossa-se caldo de peixe, faz-se um pirão, ora, ainda que seja para alguém dizer que isto aqui está parecendo samba do crioulo doido.
Vamos seguindo, que o espaço não é para brincadeiras embora se almeje um tantinho divertido. Bom humor é necessário em tudo; de leveza nem se fale... Então, se você gosta de cozinha, ainda que não seja a do compromisso diário, experimente a entrada que tem cara de praia; vai ver como é irresistível. E a não ser que seus amigos sejam assim como a princesa Anne da Inglaterra (que manda excluir de sua dieta tudo o que seja oriundo de conchas), chame-os a compartilhar. Para acompanhar faça caipirinha, outra delícia brasileira.
Com a chegada à cidade dos hipermercados ficou mais fácil encontrar diversidade de frutos do mar fresquíssimos. A carne de siri você compra em bandejinhas, limpa e branca conforme se pede para qualquer preparo. Descongele, coloque numa peneira e deixe escorrer algum excesso de líquido. Preaqueça o forno. Numa tigela misture o leite e os pães e reserve. Na panela ponha o azeite de oliva e o de dendê. Quando esquentar, adicione a cebola e refogue por dois minutos. Junte a carne de siri e continue mexendo.
Acrescente as gemas, o extrato de tomate, o conhaque, o preparado com pão, a salsinha. Tempere com sal e pimenta-do-reino, sempre será melhor aquela que você mói na hora. Mexa e cozinhe em fogo brando por mais três minutos. Unte com margarina as conchas e coloque dentro a mistura. Se não tiver as conchas, use tigelinhas individuais. Polvilhe com a farinha de rosca e leve ao forno preaquecido por 15 minutos. Sirva em seguida, tendo a delicadeza de colocar pra tocar um CD do Dorival Caymmi, de preferência aquele que tem a música O mar: “O mar/ quando quebra na praia/ é bonito, é bonito/ O mar/ pescador quando sai/ nunca sabe se volta/ ou se fica...”
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