CNHs sob suspeita


| Tempo de leitura: 3 min
O Ministério Público de Ituverava espera concluir nas próximas semanas o inquérito que investiga a participação de policiais civis da Delegacia de Trânsito e de um suposto despachante num esquema de falsificação de carteiras de habilitação naquela cidade. A atuação dos investigados é conhecida desde 2005, quando o caso foi descoberto, mas três anos depois ninguém foi punido ou teve seu indiciamento pedido. A senha de um delegado morto era a principal ferramenta para fraudar o sistema de processamento de dados do Detran (Departamento Estadual de Trânsito). Não é apenas o tempo que já dura o inquérito aberto pela Delegacia de Polícia de Ituverava que chama a atenção. Nas apurações realizadas, as equipes das corregedorias de Franca e Ribeirão Preto não conseguiram apurar exatamente quais seriam as participações dos três agentes policiais envolvidos, que continuam trabalhando normalmente. A investigação começou em julho de 2005, a partir da descoberta de um prontuário falso na Ciretran (Circunscrição de Trânsito) de Ituverava. A partir do alerta de uma funcionária da delegacia de Igarapava, o delegado Wilson dos Santos Pio chegou ao golpe conhecido por “criação de tela”, que não envolve papéis ou qualquer meio físico. Toda a documentação de um motorista de Buritizal estava transferida para Ituverava, mas não havia qualquer requerimento, autorização escrita ou taxas recolhidas ao Estado referentes ao condutor Bruno Biaggi Barros. A transferência para Ituverava foi feita apenas no sistema de dados do Detran; originalmente, o prontuário do motorista continuou em Igarapava. Para entrar neste sistema, cujo acesso só é permitido aos delegados titulares das Ciretrans, são necessários dois códigos. Um deles permite alterar dados simples, como o endereço do motorista, por exemplo. O outro código, mais restrito, conhecido por “AB”, dá condições para a substituição da categoria do motorista, exclusão ou inclusão de pontos na carteira e alteração de dados pessoais, como a idade. Em diferentes momentos, tudo isso aconteceu dentro da Delegacia de Trânsito de Ituverava. Para promover as fraudes, os três policiais foram ajudados pelo descuido do delegado Carlos Roberto Rodrigues, titular da unidade, que, em 2005, sob a alegação de não entender informática, passou seus códigos para uma das agentes envolvidas. Depois disso, perdeu o controle sobre a Ciretran. Descoberto o esquema, a extensão e quantidade de adulterações seriam desconhecidas pelo delegado Rodrigues. Portador de câncer, ele se afastou da função no início de 2006 para tratamento da doença, morrendo no dia 30 de outubro daquele ano. Mesmo depois de sua morte, seus códigos e senhas continuaram sendo usados dentro da Ciretran de Ituverava para adulterar dados. No principal computador da delegacia, constam alterações feitas até aos sábados à noite, como uma realizada às 23h23. A investigação prosseguiu em Ituverava, Buritizal e Aramina, cidades que concentravam a maior parte dos motoristas beneficiados pela máfia. O número de carteiras falsificadas é desconhecido pela polícia e pelo Ministério Público. Foram esses motoristas, no entanto, que forneceram as pistas que levariam a um outro envolvido: o falso despachante Paulo Sérgio da Silva, conhecido por Paulinho Abel. Nos quatro volumes do inquérito, ele figura como a ligação entre os motoristas e os policiais civis. Não entrava na delegacia e não tinha qualquer acesso aos computadores. Mas era o principal contato com os agentes da Ciretran. Recebia, segundo os próprios motoristas envolvidos, até R$ 1.800 por CNH falsificada. O nome de Paulinho Abel também aparece em inquéritos abertos em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, e em Guará, todos para apurar fraudes em carteiras de motorista. Dos três policiais citados no inquérito, a reportagem conseguiu falar com dois. As duas mulheres preferiram não comentar o caso, afirmando, ambas, que a defesa que tinham a fazer consta dos autos. O terceiro policial, apesar das insistentes ligações, não foi localizado. Atualmente, os três trabalham na delegacia central do município e no primeiro distrito policial.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários