Demônios encarnados


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Existem muitas formas de criar e disseminar “sofrimento e horror”. Mas dentre as variadas maneiras descomunais, duas se destacam: aquela que é produzida por meio da arte e, uma outra, a de decisões políticas em gabinetes. Infelizmente, outro trágico acidente interrompeu mais uma vida na conhecida “curva da morte” do sofrimento e do horror. Tem quem culpe o destino; a imperícia; o trecho perigoso; e ainda, tem aqueles que atribuem tudo a Deus, com a velha explicação que talvez tenha chegado a hora da partida. Me chamou atenção a declaração do jovem que esteve envolvido no acidente. Muito emotivo e inconformado com a situação, disse: “parece que foi o demônio que empurrou o carro”. Um dia antes do desastre havia lido algo a respeito do lançamento do novo filme de José Mogica Marins – o Zé do Caixão, cujo título era “A Encarnação do Demônio”, fechamento de uma trilogia tão sonhada pelo cineasta. Tanto na sinopse quanto no trailer do filme nota-se que o roteiro é uma verdadeira orgia-criacional do autor recheada de cenas de morte, sexo, violência, masoquismo, sadismo, tortura, sanguinolência, fetichismo, maldição, frases satânicas e outras coisas que imagino serem necessárias para descer ao inferno em busca de tanta inspiração. Aqui volto às duas maneiras de disseminação que abordou ao início do texto: “arte” ou “política”. No caso do filme do Marins elas se casam. Fiquei sabendo de algo curioso: Zé do Caixão recebeu, em 2003, cerca de R$ 500 mil reais para a sua grande “obra” cinematográfica e essa dinheirama toda tinha origem nos cofres do governo do Estado de São Paulo, oferecida pelo então-generoso governador Geraldo Alckmim. Considero importante a idéia de recursos públicos em promoção à cultura, embora tenha dúvidas ou direito de crítica sobre a priorização de financiamento para o tipo de produção que Zé faça, quando certamente existem outras áreas carecidas de recursos. Mas o caro leitor deve estar pensando o que isso tudo tem a ver com a “curva da morte”... Explico. Ao lembrarmos do acidente de 2002, que vitimou vinte jovens e do nada que foi feito, saber que, no ano seguinte foram liberados “desburocratizadamente” R$ 500 mil para um sujeito aficionado pela “morte”e que diz sempre que o que faz é “arte”, seria no mínimo uma prova incontestável de incoerência governamental ou então, comprovação de um governo de linha funesta. Retomo a frase do rapaz que disse lhe parecia que o demônio tinha empurrado o carro. Pode ser, mesmo. Como no filme de Mogica Marins, pode ser que a encarnação do demônio já tenha ocorrido, possuindo os corpos de alguns políticos que tão somente sabem fingir e encenar, fechando os olhos, “empurrando” o povo à própria sorte... Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e do Comércio da Franca

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