‘Ele (Luizinho) não é filho de cachorro’


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A quarta-feira começava a escurecer quando a avó materna de Luizinho, o bebê abandonado numa lixeira no Bairro São José em Franca, foi localizada pelos repórteres Marco Felippe e Divaldo Moreira do Comércio da Franca numa casa simples, pintada de rosa, num bairro da periferia de Patrocínio Paulista. De pele morena, magra, estatura baixa, a avó de Luizinho estava no tanque e atendeu a reportagem com simpatia, na ilusão de que seriam candidatos. Disse que tinha acabado de chegar do trabalho e lavava roupas. A senhora trabalha como doméstica em Franca. No quintal de chão batido, sem muros, não esboçou reação ao saber da presença do jornal e Rádio Difusora. No começo, disse que nada sabia, mas seus olhos a traíram e lágrimas passaram a tomar conta do rosto. Pausadamente, contou como se sentia, o que pensava e a todo tempo manifestou o desejo de colocar um ponto final na história. Sem pestanejar, confirmou que dois dos seus três filhos homens, a mãe de Luizinho é a única filha, estavam em Franca, no Fórum, onde tentariam ficar com a criança. Evangélica, disse sentir que a família ficará com Luizinho e perdoou a filha pelo que fez. “Ela merece uma segunda chance, estou de braços abertos para acolher ela”. Confira na entrevista, concedida num banco de madeira na porta da casa da família de Luizinho, o que essa senhora (ela pediu para não ter o nome revelado e nem deixou ser fotografada) tem a falar sobre a história que comoveu Franca e região. Encontrá-la exigiu trabalho, discrição e tempo. Contatos da cidade e conhecidas da mãe e da avó do bebê colaboraram na localização. Comércio da Franca - Gostaríamos de saber qual a origem da família de Luizinho, de onde a senhora é, quantos filhos tem e o que faz? Avó de Luizinho - Não sou de Patrocínio, sou do Norte de Minas, do Vale do Jequitinhonha. Sou viúva, tenho quatro filhos, nenhum tem problemas, todos são honestos e trabalhadores. O que eu quero é dar um fim nesta história. Comércio - A mãe do Luizinho é sua única filha? Avó - De mulher é só ela. Comércio - Como foi a vida dela até o nascimento da criança abandonada? Avó - Quando ela tinha 15 anos, ela casou e foi embora para São Paulo. Ela viveu mais de 16 anos em São Paulo. Tinha contato com ela diariamente, mas fui em São Paulo uma vez, depois falava com ela por telefone e por carta. Comércio - Quando ela voltou? Qual foi o motivo? Avó - Vai fazer três anos. Ela tinha filho para estudar, ela queria que estudasse aqui, inclusive a filha mais velha dela já morava comigo para poder estudar. Por aqui, tudo é mais fácil, cidade grande tudo é longe, tudo é mais difícil. Comércio - Quantos filhos ela tem? Avó - Três, uma de 11, um de 7 e uma de 1 ano e meio. Comércio - A senhora acompanhou as três gestações? Avó - Não, só acompanhei uma. Comércio - Como a senhora ficou sabendo do caso Luizinho? Avó - Pelo jornal, trabalho em Franca com gente que pega jornal todo dia. Não sabia que era a minha filha, nem sabia que ela estava grávida. Comércio - Vocês são amigas? Avó - Somos amigas, ela se abria comigo. Ela vinha na minha casa, mas não sabia que ela estava grávida do Luizinho. Das últimas vezes que ela veio aqui, não percebi nada, também não me contou nada. Comércio - Quando ela voltou de São Paulo, a sua filha foi morar com quem? Ela continua casada? Avó - Ela morou comigo três meses e depois quis morar sozinha. Ela foi casada, agora não é mais. Ela voltou casada e o casamento acabou aqui. Agora ela não morava com ninguém. Comércio - A senhora sabe quem é o pai do Luizinho? Avó - Não, não sei. Comércio - O que a senhora sentiu quando viu a história do Luizinho? Avó - Fiquei sabendo que era uma ligação anônima de Patrocínio, mas não sabia que era a minha filha. Vi no jornal, a minha patroa me falou, mas não sabia quem era. Comércio - Quando descobriu que era sua filha e o seu neto? Avó - Ontem (anteontem/terça-feira) à noite. Comércio - Qual foi a sua reação? Avó - Difícil. (longa pausa) Comércio - A senhora tentou falar com ela? Avó - Difícil, muito difícil. É um momento muito difícil. A pessoa que faz isso precisa de tratamento, precisa de ajuda. Precisa de uma ajuda financeiramente, precisa de tratamento, passar pelo médico, uma psicóloga. Comércio - Quando a senhora vai falar com ela? Avó - A gente vai falar amanhã (hoje). Não tive contato com ela. Comércio - E os outros filhos, encontraram com a irmã, falaram com a mãe do Luizinho? Avó - Com certeza, eles estão em Franca. Comércio - A senhora tem quatro filhos e cinco netos. Como mãe e avó, o que sentiu ao saber que um neto esteve à beira da morte, abandonado numa lixeira? Avó - É triste né, porque é o sangue da gente, um pedaço de mim (neste momento os olhos enchem de lágrimas). Eu sou mãe, sou vó, tenho meus quatro filhos, que eu amo, são minha vida. Fica difícil, dá um nó na cabeça da gente. Comércio - A sua filha merece perdão? Avó - Claro, quem somos nós para atirar a primeira pedra. Comércio - O que teria passado pela cabeça dela para abandonar a criança? Avó - Não faço idéia. Comércio - Como era a rotina da mãe do Luizinho? Avó - Ela é uma pessoa muito cabeça, trabalhadeira, ela sabe separar as coisas. Estudou muito pouco, mas estudou. Ela não é boba, morou muitos anos em cidade grande, trabalhou em casa de juiz, advogado. Comércio -Quando foi a última vez que a viu? Avó - Foi na terça-feira da semana do acontecido. Foi rápido. Não tinha sinal de gravidez. Ela usa roupa colada. Só que no trabalho ela usa uniforme, a patroa exige. Estava indo trabalhar. Ela também. Comércio - Como está a família depois de toda essa história? Avó - Os outros filhos querem a criança. Não é filho de cachorro para ser adotado por uma família desconhecida. Meus filhos têm condições financeiramente para ficar com o Luizinho e cuidar dele. Comércio - O que a senhora achou do nome Luizinho? Avó - Achei legal, achei muito legal o nome porque também tenho um filho que chama Luiz, irmão da mãe do Luizinho. Comércio - É ele que quer ficar com a criança? Avó - Ele chama Luiz Mauro e ele quer a criança. Ele tem a vida financeira estabilizada, ele tem emprego, tem casa própria, a esposa dele também tem emprego. Comércio - Qual o desejo hoje de família? Avó - Queremos colocar um ponto final, acabar com essa história. Adotar essa criança, ficar com ela e acabar com tudo isso. Comércio - E como vai ficar a mãe do Luizinho? A senhora vai acolher ela de volta? Avó - Com certeza, não vai mudar nada, nenhum momento. Ela vai continuar sendo minha filha, minha filha do coração, ela foi a minha primeira filha, a mais velha, ela é do coração (a avó chora nesta hora, emocionada). Comércio - Onde está a sua filha? Ela sofre de depressão? Avó - Em Franca. Ela vai ficar em Franca. Não sei se ela sofre de depressão, é uma pessoa que não vai no médico, por causa do trabalho não tem tempo de cuidar de si mesma.

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