Ygino Rodrigues, o poeta da pinta preta


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Será lançado hoje, a partir das 19 horas, na sede da OAB de Franca, o livro Ygino Rodrigues, o poeta da pinta preta, reunião de toda a produção do autor que dá nome à coletânea. A responsável pelo bem acabado projeto gráfico é Patrícia Cardeal, da editora Migalhas; a refinada capa vem assinada por Fábio Shimo. O produto final mostra-se dos mais estéticos e bem cuidados já vistos por aqui nos últimos tempos. É um trabalho extraordinário, que não terá a presença de seu idealizador, pesquisador, realizador: Carlos Alberto Bastos de Matos morreu em Franca aos 58 anos no dia 4 de agosto de 2004. Professor da Faculdade de Direito de Franca e imortal da Academia Francana de Letras, ocupante da cadeira 20, cujo patrono é justamente o poeta Ygino Rodrigues, o carioca Carlos Alberto cresceu em uma família onde a literatura e as ciências jurídicas exerceram influência decisiva sobre a sua personalidade. Formado em Direito pela São Francisco, foi delegado de Polícia e juiz de Direito em Patrocínio Paulista. No alvorecer do ano 2000 empreendeu viagem física e sentimental pelos espaços percorridos pelo poeta de sua eleição, Ygino Rodrigues, em Goiás, sua terra natal; em Minas Gerais, por onde andou durante algum tempo, e por fim Franca, onde veio a falecer. A vida de Ygino Rodrigues, nascido em 1872 na cidade de Goyás, antiga Villa Boa, a mesma cantada pela poeta Cora Coralina, daria um filme. É de se supor que interessasse e seduzisse o mais exigente adaptador ou roteirista de cinema. Inquieto, excêntrico, inteligente, culto e sobretudo irreverente, ele causava polêmica por onde passava, mas deixava o lastro insinuante, iluminado e encantatório de poemas marcados por temáticas de acentos singulares, na maioria sob a forma de sonetos líricos ou satíricos. No rol destes últimos figuram como “vítimas” nomes que hoje o leitor encontrará em placas de ruas e praças. Como Álvaro Abranches, Elias Motta e Sabino Loureiro, por exemplo. Se não há em Franca uma Rua Ygino Rodrigues, está na hora de os senhores vereadores se mobilizarem para um projeto do tipo “especialidade da casa”. A SOGRA DE ÁLVARO ABRANCHES Álvaro Abranches já era jornalista de renome em Franca, e intendente, casado com Anna Motta, quando chegou à cidade o goiano Ygino Rodrigues. Vinha precedido da fama de poeta-maior, mas principalmente marcado por histórias que o envolviam com alcoolismo, instabilidade emocional, doenças físicas e pouca dedicação ao trabalho. Meses depois, já com dois livrinhos publicados e escrevendo nos jornais da cidade, propôs casamento à sogra de Álvaro Abranches, Maria Thereza, viúva de 45 anos (contra os 32 do pretendente) e mãe de Anna e mais sete filhos. Contra a vontade da prole, do genro e de todo o restante da família, o casamento foi realizado no dia 10 de fevereiro de 1904, sendo noticiado na Tribuna da Franca nos termos que se seguem: “Consórcio - Realizou-se ontem o casamento do festejado poeta Ygino Rodrigues com a senhora Maria Thereza Spindola. Aos recém-casados enviamos sinceras felicitações, desejando-lhes ridentes dias de felicidades.” Álvaro Abranches, inconformado, pede a tutela dos filhos de Maria Thereza, seus cunhados, considerando que a Ygino Rodrigues faltava, “em absoluto capacidade moral, visto viver em deplorável estado de permanente incontinência alcoólica, como é público e notório nesta cidade”. Em seguida vem a disputa pela herança e pelo sobrado onde morava a viúva. No dia 30 de abril de 1905, conforme relata Carlos Alberto Bastos na página 20 do seu livro, Ygino assina no jornal Cidade da Franca o seguinte texto: “Perguntas inocentes - com que direito o abaixo assinado, padrasto da órfã menor Sabina Spindola, deve fornecer à mesma teto e alimento ou mesa e cama, sem para isso receber o que pertence à referida órfã da casa hoje pertencente a Antônio Alves?” A contenda entre Ygino e Álvaro se estenderia feroz no âmbito do público e do privado, a respeito da herança e da tutela dos filhos menores de Maria Thereza. Por esta época o poeta leva uma surrra de Elias Motta, um dos filhos mais velhos de Maria Thereza. Antes havia sido agredido a bengaladas por outro poeta, Sabino Loureiro, professor gaúcho muito respeitado na cidade. Loureiro ficara indignado com a publicação do soneto “Chuchu branco”, de Ygino, o qual em versos satíricos colocava em dúvida a sua virilidade. Houve polícia, processo, documentos que Carlos Alberto Bastos resgatou na sua rica pesquisa: “... estava na Gruta Francana, rua do Comércio, quando foi agredido inopinadamente por Sabino, a bengaladas. Atribui a agressão ao fato de ter publicado um soneto na Tribuna da Franca, ‘Chuchu branco’, em represália a insultos de Sabino Loureiro” em outro jornal da cidade. Alcoólatra, tuberculoso, notívago, provocativo e debochado, Ygino tinha o perfil do “maldito”, na linha de um Villon, por exemplo. E embora alguns o filiem ao romantismo, sua estética está muito mais próxima do lirismo de um Augusto dos Anjos. O aposto explicativo “o poeta da pinta preta”, logo abaixo do título, é lembrança pertinente e significativa, referência ao famoso soneto que imortalizou Ygino. Tornou-se ao longo da décadas muito conhecido dos francanos o poema “A pinta preta”, sempre declamado com emoção e sensibilidade por fãs, um deles o historiador Chiachiri Filho, dos maiores admiradores do poeta. Antes do lançamento no salão da OAB, haverá uma homenagem no Cemitério da Saudade, onde foi enterrado Ygino Rodrigues. Sua morte repercutiu na imprensa de Franca, do Estado e de Goiás. Querido pelo povo, foi levado à cova por uma multidão que não se incomodou nem com o frio nem com a chuva da tarde de 4 de julho de 1907. Tinha apenas 35 anos.

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