No alto dos seus 77 anos, o eletricista Onofre Martins de Sousa quer escrever um livro sobre sua vida, vender os exemplares e conseguir R$ 5 mil para comprar um terreno. Depois de adquirir a área, recorrerá à ajuda de amigos para doarem os materiais e construir dois cômodos para ele viver. Há 12 anos, Onofre mora de favor com uma amiga. Atualmente, os dois vivem numa pequena chácara no Residencial Capim Mimoso, na estrada entre Franca e Claraval (MG).
Para realizar seu sonho, Onofre precisará de muita perseverança e colaboração das pessoas. O senhor nunca freqüentou a escola. Consegue ler e escrever, mas com dificuldades. “Depois de casado (ele se casou aos 25 anos), uma vizinha que era professora me ensinou algumas palavras. Mas não sei separar as sílabas direito. Ando muito ruim para ler, dependo de uma lupa porque perdi meus óculos”, disse ele.
Onofre teve a idéia de escrever um livro para comprar a casa própria há dois anos. Embora tenha dificuldades com a leitura e escrita, arriscou esboçar a história a ser narrada na obra. O caderno que utiliza está praticamente com todas as páginas utilizadas. Ele sabe que não tem condições de produzir um livro sozinho, mas já encontrou uma solução para isso. “Preciso de uma pessoa para me orientar, alguém voluntário. Vou ditando certinho, contando minha história”.
Onofre tinha casa própria até ficar viúvo. O imóvel havia sido comprado com a herança do sogro. Após a morte da mulher, há 15 anos, decidiu vender a casa que a família tinha em Capetinga (MG) para ajudar os filhos. “Negociamos por R$ 17 mil, mas dividi entre meus cinco filhos e não fiquei com parte do dinheiro. Eles precisavam muito”. Após a venda, Onofre passou a morar de favor.
O senhor costuma visitar os filhos, mas não pretende morar com nenhum deles. “Não vou morar com eles. Cada um tem de ter a sua liberdade. Eles têm a casa deles, a família deles. Não quero atrapalhar”, disse.
SEM CONDIÇÕES
Onofre sobrevive com R$ 415 pagos pelo governo. Trabalha como eletricista, mas só faz bicos. Ele disse que não tem condições de comprar um terreno. Ao longo dos anos, trabalhou como lavrador, mas nunca foi registrado. “Somos de família pobre. Minha mulher era doméstica. Sempre tive dificuldades para criar meus filhos. Eles só fizeram até o primeiro grau”.
A amiga, que divide o teto com ele há 12 anos, disse que se comove com a história dele. “Ajudo porque fico com dó dele. Mas ele sempre falou que queria ter a casa própria”, disse a dona de casa Maria de Araújo, 65.
Onofre quer narrar passagens de sua vida desde os 3 anos, quando enfrentou sérios problemas de saúde e quase morreu. “Meu sonho é ter um lugar meu. Queria ter mais privacidade. Queria uma casinha nem que fosse de dois cômodos”, disse, emocionado (leia mais no apoio).
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