Sueli Lima Rodrigues Gonçalves já esteve presa em quase todas as cadeias femininas do Estado de São Paulo. Carandiru, Tatuapé, Taubaté, Ribeirão Preto, Altinópolis e, agora, Batatais. Desde a adolescência, quando começou a se drogar, sua vida foi voltada para delitos, crimes, drogas e alucinações. Dos quatro filhos, três são usuários. É uma pessoa interessante, bem falante e articulada. Tida como uma das líderes entre as presas, nega que exerça autoridade sobre as demais. “O que eu faço é cuidar das meninas que chegam aqui; mostrar para elas que o caminho do crime não leva a nada. Que tirem o exemplo por mim mesma”.
Sueli, formalmente, tem oito anos de prisão para cumprir. Como a lei reserva direitos a presos com bom comportamento ou que trabalhem, é possível que saia já no ano que vem, beneficiada pela remissão da pena.
Em seu relato, com mais de uma hora, falou de quando começou a roubar, a se prostituir e furtar pessoas para manter o vício que começou aos 14 anos. No auge da dependência, injetava cocaína até com água de enxurrada.
E foi a partir disso que começou a virar hóspede freqüente nas cadeias femininas paulistas. Em 2006, quando deixou a unidade de Ribeirão Preto, voltou a morar no Jardim Guanabara, em Franca. No bairro abriu um bar “para programa de mulheres mesmo”, como disse.
Voltou a ser presa depois de ser pega em uma escuta telefônica feita pela Delegacia de Entorpecentes, mas, dessa vez, sem dever nada. Foi para São José da Bela Vista. Depois transferida para Batatais.
Neste novo período atrás das grades, trouxe junto um exame positivo para HIV e um diabetes altíssimo. Contraiu a aids depois de uma relação sexual. Em pouco tempo, feridas não cicatrizavam mais e os cabelos começaram a cair. Hoje, graças aos medicamentos e coquetéis que toma, não apresenta sinais visíveis que indiquem qualquer doença.
No braço esquerdo, a tatuagem Luan remete a alguém querido. Na verdade, trata-se de Luana, 28, presa na mesma cela, pelos mesmos motivos. Meio sem jeito, revelou: “Gosto muito dela. A nossa convivência aqui ajuda a esquecer um pouco os problemas”.
A filha de Sueli, de 16 anos, resolveu, algumas semanas atrás, ficar por conta própria na cela de Sueli após um dia de visita, o que acontece às quartas-feiras. Descoberta na manhã do dia seguinte, foi presa e devolvida para Franca.
Dois dias depois, por uso de drogas, acabou levada para a mesma cadeia, mas para a ala reservada aos adolescentes. “Fui ver o que a droga fez com minha família, quando minha filha chegou aqui irreconhecível, magra, fedendo, descabelada. E pensar que minha filha era linda”, disse Sueli. “Hoje, percebo que não sei onde joguei mais de 20 anos da minha vida”. A menina e os outros filhos vivem em Franca sob os cuidados de parentes.
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