O lugar onde os dias não passam


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SEM DONO - Carcereiro verifica conteúdo dos produtos que serão entregues às presas. São os carcereiros que tomam conta da cadeia que vive sob rodízio de delegados
SEM DONO - Carcereiro verifica conteúdo dos produtos que serão entregues às presas. São os carcereiros que tomam conta da cadeia que vive sob rodízio de delegados
Flávia furtou camisetas e calcinhas; umas seis peças ao todo. Mirian foi pega com drogas no posto de pedágio; Tânia disse não saber por que foi parar lá. Michele, grávida, também não. Jovens, essas mulheres estão privadas do que mais prezam: a liberdade. Presas na Cadeia Pública Feminina de Batatais, aguardam os dias passarem, seja na ânsia pela soltura, seja na dúvida pela condenação ou de uma transferência que as afaste ainda mais da família. No lugar onde cabem 21 mulheres, uma população que oscila em torno de 100 indivíduos se amontoa nas seis celas. A superlotação é apenas um dos aspectos que marcam o cotidiano das detentas, originárias de 23 cidades, mas outros registros emprestam um caráter ainda menos digno ao local. A tensão gerada pela convivência, a disputa por poder interno, a ociosidade, doenças, surtos de sarna, falta de medicamentos, limpeza precária e colchões apelidados de "tabletes" são apenas alguns dos ingredientes que obrigam as presas a obedecer regras criadas por elas mesmas. É isso ou explode. Com autorização da Justiça, a reportagem conversou com algumas delas, pré-selecionadas pela direção, mas não obteve autorização do delegado responsável, Sebastião Picinato, para entrar nos corredores. No parlatório, espaço reservado para o contato com os advogados, ouviu suas histórias, os dramas pessoais, falou com funcionários, com o Ministério Público, autoridades policiais. Neste domingo e nos próximos dois, o leitor terá uma radiografia da Cadeia de Batatais, única unidade prisional para mulheres na região de Franca. O interior de uma cadeia não é dos lugares mais tranqüilos para se estar. Ainda assim, a população carcerária feminina gera muito menos tensão que a de homens, que dominaram a unidade de Batatais até dezembro do ano passado. Depois de seguidas tentativas de fuga e depredações, a Justiça deu ordem ao Estado para que fechasse o local ou promovesse reformas que dessem mais segurança ao prédio. Saíram os homens, chegaram as mulheres, vindas, em sua maioria, da cadeia feminina de São José da Bela Vista, hoje desativada. Na conversa com algumas dessas mulheres, a reclamação é a mesma. Com a capacidade estourada em 500%, dormem como valetes de baralho, com as cabeças umas nos pés da outras. Como não há trabalho para todas, muitas passam o dia dormindo, inertes. Quem domina algum trabalho manual, seja um bordado ou um penteado diferente, acaba ganhando um dinheiro extra, quase todo gasto no consumo de produtos triviais, de absorventes a artigos para limpar o "xis".

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