A leitora Lucileida Mara de Castro, que tem surpreendido com sua ficção madura no caderno Nossas Letras, pergunta se me lembro de umas balas de café que eram vendidas nos portões das escolas públicas e nas ruas de Franca. Sim, eu me lembro delas e das mulheres que as vendiam, carregando-as numas cestinhas rústicas de bambu, cobertas por impecáveis panos-de-prato brancos.
Lucileida diz que sente o gosto, a textura; se duvidar, até ouve o barulho que o papel fazia enquanto os dedos desembrulhavam a bala macia, escura, doce-amarga, perfumada. Nossa memória pode guardar sensações como estas, ligadas ao tato, ao paladar, à vista, ao olfato, à audição, por uma vida inteira. Principalmente se a primeira vez teve a infância como espaço. Um neurologista suíço analisou a obra de Proust sob este ângulo e produziu uma tese para comprovar como as primeiras emoções são inapagáveis.
O escritor francês construiu uma catedral de palavras a partir da lembrança de um típico biscoito francês chamado madeleine, molhado numa xícara de chá fumegante : era recordação associada a uma tia, Leonie, aparentemente hipocondríaca, que vivia acamada e lhe oferecia este agrado quando ele a visitava nas férias.
O episódio é muito citado quando se fala em Marcel Proust, e talvez por ser o primeiro de uma lista de rememorações do narrador no relato inicial - O caminho de Swann. Mas há vários ao longo dos seis volumes de Em Busca do Tempo Perdido. As histórias só se erguem, entrelaçam e confluem para um final épico a partir de retomadas de fragmentos sensoriais do passado, resgatados pelo cérebro de forma involuntária.
Todos nós temos a nossa xícara de chá de tília e a nossa madeleine.
Trilhei muitos caminhos até encontrar a receita sugerida por Lu. Em nenhuma parte encontrei as mulheres com suas cestinhas. Nosso mundo de fast food e guloseimas em série não as comporta mais.
Elas só sobrevivem dentro de nós. Entrei no Google, fui ao livro clássico de Ana Luiza Martins, folheei dicionários. Descobri coisas. Fiquei sabendo que o café, planta nativa da Abissínia, tem no árabe um étimo que também significa vinho: ‘qahwa’, depois ‘qalvé’. E muito mais, pois o trânsito do café pelo mundo é de uma riqueza extraordinária. Uma das histórias interessantes associa a introdução das sementes de café em nosso País a um gesto de paixão de Madame d’Orvilliers, mulher do governador da Guiana Francesa, pelo jovem oficial brasileiro Palheta.
Conta a lenda que, apaixonada pelo moço, enviado pelo governo do Pará a fim de conseguir na possessão francesa grãos de café, ela burlou a vigilância do marido, que obedecia às ordens do rei de França, Luís XV, e entregou ao oficial, misturadas a um ramalhete, algumas sementes. Estas teriam dado origem a todo um ciclo econômico que, transcorridos três séculos, ainda tem sua importância em nosso País.
À procura da receita perdida de bala de café testei duas, que descartei. Na terceira acho que me aproximei do que imagino a doçura mais próxima de nossas lembranças - a minha, a de Lu, a de tantos que tenham experimentado aquelas delícias. Pode ser que sim. Pode ser que não. Porque, a bem da verdade, esta bala deveria nos permitir um milagroso e instantâneo retorno à infância com toda a sua magia, o que absolutamente não é possível.
Encontrei a receita que hoje publico num velho caderno de capa xadrez onde alguma mão habilidosa também para a caligrafia escreveu: Dona Lili. Se lhe interessar, reúna os ingredientes e mãos à obra. Há que se ter paciência para mexer com a colher de pau e depois enrolar os cordões, cortar as balas, embalar em papel celofane ou manteiga.
Mas vale a pena, acho.
Coloque numa panela grande o leite, a farinha e a gema. Mexa com um batedor até homogeneizar. Não deixe grumos de farinha. Acrescente o açúcar, o café coado, uma colher de azeite, o café solúvel e o mel. Deixe levantar fervura, baixe a chama e mexa durante meia hora. Estará no ponto quando aparecerem o fundo e as laterais da panela. Unte uma forma com azeite e despeje.
Espere amornar, corte em cordões e depois em pedacinhos. Embale. Você pode embrulhar algumas em celofane e outras em papel manteiga, para melhor efeito visual.
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