Terminada mais uma Olimpíada, são muitas as razões para justificar o desempenho aquém do esperado pela comitiva brasileira. É lugar comum dentre a “crítica especializada” alegar que o Brasil gasta pouco no apoio às modalidades esportivas olímpicas. Afinal, não existe uma infra-estrutura adequada para estimular e desenvolver a prática de esportes olímpicos no país, tampouco um planejamento estratégico para concentrar os recursos fiscais escassos no investimento em atividades esportivas que ou temos uma vantagem natural, ou elevam a probabilidade de conquista de medalhas - esse é o caso de esportes individuais como atletismo (47 categorias), ginástica artística (14 categorias) e natação (34 categorias).
A destinação de recursos públicos para incentivar os esportes olímpicos depende das preferências da sociedade, neste caso representada pelos políticos. No Brasil, o investimento dos contribuintes nos esportes olímpicos no ciclo 2005/2008 - através de recursos provenientes da lei das loterias, lei de incentivo ao esporte, empresas estatais e do programa “Brasil no Esporte de Alto Rendimento” - somou cerca de R$ 650 milhões, 2,3 vezes mais do que os R$ 280 milhões investidos no ciclo olímpico anterior.
Muitos críticos argumentam que é insuficiente para se montar uma equipe competitiva, mas não parece ser este o caso. Por exemplo, os contribuintes da Austrália aplicaram R$ 326 milhões no ciclo olímpico atual, enquanto que os contribuintes da Nova Zelândia investiram R$ 90,5 milhões.
O custo por medalha no Brasil (15 medalhas) foi de R$ 43,3 milhões, enquanto que na Austrália (46 medalhas) e Nova Zelândia (9 medalhas) foi de, respectivamente, R$ 7,1 e R$ 10,1 milhões!
Neste contexto, é preciso desfazer a armadilha colocada pelo senso comum: o problema do desempenho brasileiro em olimpíadas não é a falta de investimentos, mas sim (I) a mudança das preferências de nossa sociedade, que não valoriza as atividades esportivas, e (II) o mau uso dos recursos públicos em decorrência da ausência de um planejamento estratégico.
Definitivamente, os esportes olímpicos não estão entre as preferências dos brasileiros. O Comitê Olímpico Brasileiro quase não recebe doações de pessoas físicas e jurídicas. Nos EUA, boa parte dos cerca de R$ 800 milhões de orçamento foram provenientes de doações e incentivos.
Nos próximos ciclos o Brasil deve dar preferência para investimentos em lutas, ginástica, atletismo e natação. Investimentos em esportes coletivos como o basquete ou o ciclismo, por exemplo, são custosos e reduzem as chances de conquista de medalhas, pelo número de medalhas disputadas ser relativamente pequeno.
Assim, enquanto insistirmos em fazer o mesmo aporte de recursos a modalidades tão distintas como o badminton (5 categorias) e taekwondo (8 categorias) - porque existem mais medalhas disputadas no taekwondo e o País já possui alguma tradição nesta modalidade - ao invés de fazer uma destinação estratégica dos recursos disponíveis para os esportes olímpicos, continuaremos colhendo sistematicamente resultados aquém de nosso status econômico e não conseguiremos nos libertar dos fracassos olímpicos e seus efeitos deletérios sobre o desenvolvimento do esporte olímpico nacional.
Breno Lemos
Professor da PUC/PR; Evelin Lucht, mestranda da UF/PR e Edílson Catapan, superintendente da Copel
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