Esta foi uma semana pesada, dolorosa, difícil. Vivo no seio do Grupo Corrêa Neves de Comunicação a maior parte das horas de meu dia. Aliás, fico mais tempo almoçando e jantando informação do que com minha família e, por isso mesmo, dou muito valor aos raros momentos em que podemos estar juntos.
Hoje é sexta-feira, são 15h36. Escrevo minha coluna do sábado. Tenho dores pelo corpo. A musculatura do pescoço está travada e a respiração, ofegante. Estou assim desde a terça-feira. Saí de casa cedo para mais um dia de trabalho e, no meio do caminho, resolvi dar um pulo no Velório São Vicente de Paulo para levar algum conforto – se é que isso é possível – ao Laerte Bazon, hoje radialista policial da rádio Hertz mas que foi, durante um bom tempo, ao início de sua carreira, técnico de som que cuidava das transmissões do programa de rádio que fiz com a cronista Patrícia na rádio Imperador, há muitos anos.
Lá estava ele. Só – havia muita gente no ambiente do velório mas parece que respeitavam a opção do moço em ficar só – corpo prostrado na cadeira colocada ao lado do caixão de sua filha de 22 anos, grávida de 2 meses, menos de um ano de casamento.
Cabeça baixa. Estado de choque. Em outro planeta. Sentei-me a seu lado. Lancei o braço a seus ombros. Ele permitiu que sua cabeça se apoiasse em mim. Não dissemos nada. Não adiantaria.
Olhei poucas vezes para Kenia. Não a conheci em vida. A violência física a que foi submetida pelo rapaz de 28 anos que invadiu sua casa, a estuprou e finalmente, “porque ela não parava de falar” a sufocou até a morte, a transformou em uma coisa, não mais a moça linda que estava na foto publicada pelo Comércio abaixo da manchete estarrecedora daquela terça: “Filha de radialista, grávida é estrangulada e morta em sua casa” (veja em http://www.comerciodafranca. com.br/capas.php?n=20301). Ou melhor: era ela, sim, porque eu sabia que era mas penso que o que restou exigia uma urna lacrada. Deve ser horrível morrer sem ar.
Sem querer, meus olhos seguiram até à altura de seu ventre. Ali, devia estar a segunda criaturinha, outra vítima do homem que agiu sob o efeito de crack segundo disse à polícia. A criança que não foi parida, de uma só vez ficou também sem a mãe; sem o direito de saber se,nascido e crescido, poderia melhorar o mundo que não lhe deu chance de viver. Simplesmente viu deixar de existir o sopro de vida que lhe dava vida, sem qualquer chance de defesa em pleno ninho materno.
Foi demais. Saí. Fiz todo o percurso até a sede do jornal chorando. Pedi a Deus pelos três e por todos os atingidos pela desgraça. Pedi também que Ele iluminasse a investigação e permitisse que o assassino fosse pego rápido. E confesso: nutri por ele os piores instintos. Quem tem família sabe...
Impossível não pensar nos próprios filhos. Você se lembra de cada segundo em que estão longe de casa, a trabalho ou lazer. Arrepia-se com o trânsito que mata, com a maldade dos que ficam de olho no que você faz; com a certeza do desprezo total a valores morais e éticos que caracteriza as pessoas deste mundo do ter sem ser. E, devagar, tudo piora: quem é mau entra em sua casa, arrebenta, violenta. Mata. E infeliz de você se, ainda que em defesa de sua família ou propriedade, agride o bandido. Torna-se vítima dele e da lei, que deveria proteger você.
Tristezas conduzem o organismo humano à dores. A musculatura endurece e você tem cãibras. Os dentes rangem e os maxilares travam. Falta o ar. Sua cabeça gira. É impossível encontrar remédio contra a violência dos bichos humanos, alimentados a tesão, droga, dinheiro, poder...
BRILHANTE
Brilhante a atuação da Polícia Civil em desvendar o crime. No dia seguinte, enquanto a comoção ainda tomava conta de tudo e de todos, o delegado Márcio Murari e seus investigadores já sabiam o autor. Apenas não tinham provas irrefutáveis. Mais investigação e o auxílio de denúncias anônimas pelo 193 permitiram aos policiais chegar à bolsa da vítima, atirada em terreno perto do Pólo Clube. O assassino não pôde mais negar...
RECADO AO LAERTE
Meu caro. Sei que o trabalho é o melhor dos remédios para afastar a dor mas aconselho-o a ficar fora do rádio por mais alguns dias. Certamente, a dor e a tristeza não são as melhores conselheiras mas o silêncio pode ser. Estamos nós todos, seus companheiros de jornalismo, torcendo para que você encontre lenitivo poderoso o suficiente para minorar seu sofrimento. E espantar as lembranças tristes para bem longe...
HISTÓRIA QUE NÃO FOI CONTADA
Laerte Bazon esteve afastado de sua filha após o casamento da moça há quase um ano. Há dois meses, soube que seria avô. Voltou a encontrá-la. Voltaram a se abraçar. A criança impedida de nascer pelas mãos covardes operou seu milagre, pegou sua mãe pelas mãos e se foi. Papéis cumpridos. Nem tudo é como se sonha, nesta vida...
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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