Marcela de Jesus, bebê anencéfalo que viveu um ano e oito meses em Patrocínio Paulista, voltou a ser ponto de discussão durante o segundo dia de audiência pública promovida pelo STF (Supremo Tribunal Federal), em Brasília (DF), sobre a possibilidade da legalidade do aborto de fetos anencéfalos.
Ontem, foi a vez de médicos especialistas apresentarem opiniões em relação ao caso. No primeiro dia da audiência, que aconteceu na última terça-feira, o assunto foi debatido por religiosos. O ponto alto da discussão se deu quando entidades médicas defenderam “antecipação do parto’’ de fetos com anencefalia.
No caso de Marcela, os médicos disseram que a criança não era anencéfala. O representante da Sociedade Brasileira de Medicina Fetal, Heverton Pettersen, mostrou ultra-sonografias e exames de Marcela de Jesus e disse que não se trata de uma criança com anencefalia, principalmente por apresentar cerebelo. Ele citou ainda que, para a medicina, dois aspectos indicam a morte: a parada cardíaca e a morte encefálica e disse que um feto anencéfalo é um “natimorto neurológico’’.
O ministro Carlos Alberto Direito questionou a fidelidade dos exames que indicam a anencefalia. “Em medicina, não há certeza nem diagnósticos absolutos. Particularmente quando se trata de diagnósticos por imagem. Na vida, a única certeza são os valores éticos e morais’’, afirmou.
A médica-pediatra Márcia Beani Barcellos, que acompanhou Marcela desde o nascimento, se mostrou chateada com os comentários. “Isso não é verdade. A Marcela era um bebê anencéfalo. O diagnóstico não é meu. Foram feitas duas ressonâncias magnéticas que comprovaram que era anencefalia. Essa desconfiança do diagnóstico me deixou muito chateada. São colegas que não conheceram a Marcela, que não a examinaram e que não viram o exame de que estão falando”.
Márcia Beani, que não participou do evento, disse que gravou um vídeo falando da Marcela e que foi exibido durante a audiência pública. “É preciso tratar deste assunto com muita cautela. O que está em julgamento é se a gestante de um anencéfalo poderá optar pelo aborto. Eu e a Cacilda nunca levantamos bandeira a favor ou contra; o que fizemos foi só cuidar para que a Marcela tivesse qualidade de vida”.
A última audiência está marcada para o dia 4 de setembro. A previsão é que o caso seja votado em novembro.
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