O primeiro dia de audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) para discutir a legalidade do aborto de fetos anencéfalos (com má formação cerebral que inviabiliza a vida fora do útero) teve como um dos pontos centrais de debate o caso da bebê Marcela de Jesus Galante, que viveu um ano e oito meses em Patrocínio Paulista. O exemplo de Marcela foi apontado inúmeras vezes, durante a audiência pública, como uma prova incontestável de que pode haver vida após o parto. Mas as entidades favoráveis ao aborto nessa situação insistiram em dizer que não acreditam que a menina realmente sofria de anencefalia.
“Foi um caso de diagnóstico errado”, garante o médico Antônio Fernandes Moron, professor do Departamento de Obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que não participou dos debates no Supremo.
A mãe da Marcela, Cacilda Galante Ferreira, que compareceu à audiência no Supremo ontem mas não se manisfestou oficialmente, acredita que a filha teve anencefalia sim. “Foi o que a última ressonância magnética apontou. Eu tenho laudo mostrando isso claramente”, destacou.
Religiosa e mãe de duas adolescentes, Cacilda veio a Brasília convidada pelo grupo contrário ao aborto para passar a mensagem de que vale a pena ter a criança, mesmo que anencéfala. “Não me arrependo de nada, faria tudo novamente”, diz a dona-de-casa.
Durante todo o dia, ela foi muita assediada pela imprensa de todo o Brasil. “Fico feliz de poder manter viva a missão da minha filha e poder falar sobre a minha experiência”.
Com base nas audiências públicas, o Supremo Tribunal Federal votará a legalidade ou não do aborto de bebês anencéfalos. A previsão é que o julgamento aconteça ainda neste ano.
As audiências foram divididas por áreas. Ontem foi a vez dos grupos religiosos exporem o que pensam do aborto. Entre os participantes, estiveram a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), representantes da Igreja Universal, da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família, Católicas pelo Direito de Decidir, Associação e Médico-Espírita do Brasil.
Amanhã, será a vez da parte científica. Entre os participantes, estará Thomaz Rafael Gollop, representante da (SBPC) Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e especialista em medicina fetal. O médico foi entrevistado pelo Comércio no ano passado e chegou a afirmar que Marcela dificilmente sobreviveria a quatro meses de vida. No dia 4 de setembro, participarão representantes da sociedade civil.
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