Na ponta dos pés


| Tempo de leitura: 4 min
Meia hora de atraso para a entrevista com o Comércio provou que a rotina de Marco Auréllyo Malta, 17, é intensa. Depois de fazer uma prova na Escola Estadual “João Marciano”, onde cursa o 3º ano, o bailarino teve de ir até a sua casa no Jardim Esmeralda e esperar o ônibus urbano para chegar até o centro, na escola Ballet Carla Pacheco. Sacrifício que ele enfrenta há dois anos e meio e do qual já começou a colher os frutos: ganhou uma bolsa integral, das seis vagas disponíveis, para estudar no English National Ballet, o balé nacional da Inglaterra. A etapa mais difícil Marco conseguiu. Agora ele vive um drama: precisa de apoio financeiro para garantir a sua manutenção mensal durante os três anos de estudos. A audição do English National Ballet foi realizada no dia 30 de julho, em São Paulo. Segundo a professora Carla Pacheco, inicialmente a escola selecionaria cinco brasileiros, mas acabou abrindo mais uma vaga. Marco Auréllyo concorreu com 15 bailarinos de todo o País. “Nunca imaginava que ia passar porque sabia que lá ia disputar com bailarinos experientes e mais preparados”, disse. Ele conta que quando foi chamado, levou um susto. “Eles pediram para o pessoal esperar em outra sala. Escutei o meu número e pensei que tinha sido excluído. Foi pura sorte e graças a Deus”, ressaltou. Sorte? Será que não foi talento? A timidez e a humildade, estampadas no rosto e no olhar do bailarino, respondem por ele. Marco Auréllyo ganhou uma bolsa integral de três anos. De acordo com Carla, o custo do curso anual é de 13 mil libras, ou seja, cerca de R$ 43 mil por ano. “O curso é completo e são oito horas de aulas diárias. Além disso, a escola exige que o aluno se matricule num curso de inglês no período noturno”, esclarece a professora. Com tantas horas dedicadas ao estudo, o bailarino não terá tempo suficiente para trabalhar. Por isso, ele precisa conseguir um apoio financeiro para se sustentar, já que a ajuda da escola inglesa não será suficiente. Carla calcula que Marco vai precisar de pelo menos R$ 2,5 mil mensais e a garantia dessa verba até setembro, prazo estipulado pela escola para começar os estudos. “Está sendo uma busca desesperadora”, disse o estudante. Se vale a pena ficar três anos longe da família e dos amigos? Ele responde rápido sem pensar. “Vou fazer o que gosto e vou ficar muito feliz”, conta, ressaltando que também está preparado para desistir caso não encontre patrocinador. TALENTO DE BERÇO “Ele já nasceu bailarino”, fala empolgada a professora Carla, que percebeu o talento de Marco na primeira semana de aulas. “Ele tem o tipo físico ideal para balé: linhas alongadas, elasticidade e musicalidade”. Carla argumenta que para aprender balé são necessários pelo menos dez anos de estudos, mas Marco se destacou em apenas dois anos e meio. Inicialmente o bailarino procurou a dança contemporânea para se aperfeiçoar no teatro, arte que ele fez durante quatro anos no Sesi de Franca. Em uma semana Carla o incentivou a estudar balé. “Já na primeira aula gostei e mudei de curso”, recorda Marco, que logo foi integrado ao projeto Dançar é Vida, iniciativa do Ballet Carla Pacheco para atender aos alunos talentosos de baixa renda. Desde o começo, ele enfrentou o preconceito do próprio pai, que não aceitava a idéia do único filho fazer balé. Depois de um ano, Marco foi obrigado a abandonar o curso, mas, por insistência da professora, o bailarino nato continuou a fazer as aulas escondido do pai por um mês. Sem “mesada” da família, ele conseguiu emprego à noite no setor de Cópias da Unesp, que fica em frente à escola de dança, onde ele ensaia durante quatro horas todos os dias. Sobre a bolsa e a viagem para a Inglaterra, o pai autorizou, mas também não faz questão. “Ele disse que vai assinar todos os papéis porque quer me ver feliz, mas não vai mover uma palha para me ajudar”, conta Marco, conformado. Isso não é problema para quem tem ao seu lado “tia Carla”, a professora que enche os seus olhos de orgulho e carinho. “Ela é a minha segunda mãe. Me ensinou a ter garra, confiança e disciplina”, fala. “Hoje eu não vivo sem o balé. Até nos fins de semana sinto falta da dança”, disse. Marco sabe que precisa estudar e aprender muito ainda, mas já sonha alto: “Quero dançar no Kirov Ballet (Rússia) e representar Franca e o Brasil lá fora”.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários