Nesta segunda-feira, embora nem todos recordem, se comemora o Dia do Soldado. Em minha família, sou o único que passou pela experiência de vergar a farda do Exército Brasileiro, onde adquiri ensinamentos válidos para o resto da vida, tais como amar a Pátria, sobrepor o senso de dever às vontades momentâneas, ceder lugar para as senhoras no ônibus, etc. Após dois anos de serviço, de lá saí carregando apenas as divisas de Cabo nos ombros e uma medalha que as Leis - mais sensíveis e agradecidas do que os homens - me pregaram ao peito. Portanto, sob pena de mais tarde responder perante minha consciência, devo dar testemunho do que vivi nessa instituição, imerso e recluso num verdadeiro sacerdócio de dedicação ao País.
Quando eu era menino, costumava pedir ao meu pai que, como recompensa pelo bom comportamento, me levasse a um quartel do Exército situado perto do bairro, onde todas as manhãs, como é costume tradicional, a tropa em forma cantava o Hino Nacional perante o hasteamento da bandeira. Lembro-me, como se ontem fosse, do quanto eu me emocionava ao ouvir os primeiros toques da corneta e o início da cerimônia. E então aquelas histórias ecoavam na minha cabeça: as expedições do Marechal Rondon, que levou o telégrafo Brasil adentro, o exemplo do tenente Antônio João Ribeiro, que morreu com toda a sua guarnição para não se render aos paraguaios... Enfim, aos meus olhos, o Exército era o escudo da Pátria e, portanto, quando sobreviesse a minha maioridade, era lá que eu deveria estar. Imbuído dessa convicção, apresentei-me como voluntário ao completar 18 anos e fui incorporado às fileiras do 6° Regimento de Infantaria, sediado na cidade de Caçapava (SP), em 8 de março de 1999. Com jurisdição sobre as cidades vizinhas, o 6º RI foi a primeira unidade brasileira a desembarcar na Itália durante a 2ª Guerra Mundial. Após me alistar, freqüentei o Curso de Formação de Cabo, o qual tive a distinção de concluir como 1º colocado da turma.
É comum que se critique os rigores da disciplina militar. De fato, as regras da caserna são duras e as punições, idem. A impontualidade é castigada com xadrez, a barba mal-feita e o coturno mal-engraxado, com faxina no fim de semana. Porém, poucos entendem que uma coisa é preparar gerentes para administrar empresas, outra coisa é forjar soldados para enfrentar um combate. No jovem recruta são incutidos valores como a honra, a abnegação e o amor exaltado ao País. Lembro-me, como se fosse ontem, das marchas exte-nuantes sob o sol, das noites frias dormidas no chão duro do bivaque, dos exercícios intermináveis subindo cordas, transpondo obstáculos em meio à lama e cruzando as águas caudalosas do Rio Paraíba, de fuzil na mão e mochila nas costas. E lembro-me, acima de tudo, da solidariedade dos soldados que amparavam uns aos outros quando algum companheiro exausto tombava vencido pela fadiga, para que a manobra fosse concluída sem baixas e o Estandarte do Regimento não viesse ao chão.
Para mantê-lo erguido, batido pelo vento e visí-vel a quem de longe nos olhava, derramávamos quanto suor fosse necessário, pois a queda do Estandarte representava a desonra da tropa. Nosso instrutor costumava gritar: "Quando o corpo não agüenta, a moral sustenta!" De fato, eram esses momentos de desespero que testavam nossa fibra moral e determinação para enfrentar os supremos sacrifícios impostos pelo dever militar. É uma preparação massacrante, mas dela emerge um novo homem, pois "na caserna, escola rude e sábia, é obedecendo que se aprende a comandar e é praticando que se aprende a fazer".
Após alguns meses de adestramento, até a maneira de andar e falar dos recrutas havia se modificado. Garotos de 18 anos pareciam homens feitos. Pouco se sabe sobre o papel social do Exército nas regiões mais atrasadas, onde o governo mal se faz presente. Jovens pobres, mal nutridos, semi-analfabetos, sem noções de higiene e carentes de perspectivas saem de lá cidadãos. Semanas após o alistamento, rapazes antes esquálidos ganhavam peso, perdiam carrapato (sim, carrapato!) e adquiriam hábitos limpos. Havia um soldado, coitado, que custou a aprender que não podia usar a escova de dentes dos outros. Ali, no quartel, tive a oportunidade de pegar na mão de um analfabeto para ajudá-lo a escrever com giz o primeiro "A" da vida dele, gesto que repeti dezenas de vezes, ao lado de outros colegas cujo nível de instrução levou o coronel a designá-los para essa tarefa. Outros, já alfabetizados, freqüentavam cursos técnicos e encerravam o serviço militar capazes de exercer uma profissão de eletricista, mecânico, motorista, etc.
Dentro do possível, ajudávamos a paupérrima comunidade circundante, vacinando, providenciando documentos, melhorando algumas trilhas, etc. Após as 18 horas, o Regimento se tornava uma espécie de creche, onde mães sobrecarregadas deixavam seus peraltas jogando bola por várias horas enquanto iam cuidar de seus afazeres e bicos, cientes de que ali os pimpolhos estavam protegidos sob os olhos atentos dos oficiais e praças. E fazíamos isso com muito gosto, pois aqueles meninos eram os soldados de amanhã e a eles passaríamos a tocha. Hoje, anos depois, decerto muitos deles estão trajando uniforme.
Deixo esse depoimento porque, normalmente, as críticas ao Exército partem de políticos e "intelectuais" que jamais deixariam o conforto de casa para levar um pouco de progresso aos rincões mais carentes da Pátria. Tive a oportunidade de atestar isso pessoalmente quando fui calouro da Unesp-Franca. Via de regra, os insultos e calúnias ao estamento militar provêm de filhinhos-de-papai e socialistas de boteco que não conseguem trocar uma lâmpada sem chamar os bombeiros. Da classe política nem se fala. Suponhamos, leitor, que amanhã uma potência estrangeira invadisse a Amazônia para tomá-la do Brasil - hipótese para a qual o Exército se prepara dia e noite. Seria possível imaginar gente como Lula, FHC, Collor, Tarso Genro e José Dirceu se engajando num combate de vida ou morte pela nossa Nação? Não dá nem para imaginar. Todavia, existem milhares de brasileiros que fariam isso e muito mais.
Quando dei baixa, perfilado ombro a ombro com meus companheiros, prestei o juramento à bandeira, prometendo "dedicar-me inteiramente ao serviço da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderei, inclusive com o sacrifício da própria vida". Quando prestei esse juramento, o fiz chorando e, passados seis anos, não me arrependo. Queira Deus que o Brasil continue em paz, mas se a corneta tocar, eu faria tudo novamente e muito mais.
EDUARDO LUCAS DE VASCONCELOS CRUZ é bacharel em Relações Internacionais e mestrando em História pela Unesp, bacharel em Direito pela FDF e Editor-assistente do Comércio da Franca
Eduardo Cruz
Editor-assistente do Caderno Brasil
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