Devido a manifestações de alguns leitores, que recordaram o tempo em que cinema tinha por objetivo único receber expectadores de filmes (hoje parece que a preocupação maior é oferecer pipoca e outras guloseimas, comercialmente, é claro), o assunto continua em cartaz ainda nesta semana. E por muitas outras continuaria. A Sétima Arte é um campo inesgotável.
A magia do cinema continua encantando muita gente. Dificilmente uma pessoa, não importa a idade e por mais insensível que seja, fica alheia à representação de uma vida, ou parte dela, na trama de um filme. Ainda mais se for uma história bem interpretada; com uma trilha sonora em conformidade com as cenas; sem aquela conhecida preocupação mercantil aguçada por parte do produtor; valendo mesmo a arte pela arte.
Época houve em que até o cinema fomentava a cultura de um povo, a começar pelo incentivo constante à leitura. A maior parte da produção cinematográfica tinha origem nos estúdios norte-americanos. O idioma inglês predominava nos filmes. Não havia dublagem e somente legendas, em português. Com isso, o espectador era obrigado a ler a “fala” dos atores. De sobra, acabava por aprender a pronúncia de algumas palavras inglesas.
Esse ato de leitura forçava a concentração do público. Havia silêncio entre os espectadores nas sessões de cinema. Ninguém falava com ninguém. Muito menos alguém comia pipoca. Não havia a imbecilidade da interação da platéia com o ator ou com a atriz. Só o Tarzan gritava. Lá na tela! Mas todo mundo entendia o filme. E também sabia o nome de todos os artistas participantes, do compositor da trilha sonora e até do diretor da película.
Agora, em plena era da comunicação midiática, com a internet fazendo a vez de toda mídia (palavra bem antiga, já existia no latim, no entanto, muita gente a acha moderna, chique e até pensa que ela veio do inglês), a moçada assiste a filme só por assistir. O que conta é a ação. A violência. A destruição. A beleza plástica de uma cena, a poesia de uma tomada ambiental, a sutileza de uma fala ou até mesmo de um silêncio, perderam todo o valor cultural.
O filme deixou der ser uma mídia quente. Virou novela. Na verdade, telenovela. Marshal McLuhan, em Os meios de comunicação como extensão do homem criou a teoria de que o livro, o jornal, o cinema e o rádio são meios de comunicação quentes. A leitura força o raciocínio do receptor. O som irradiado força a imaginação. Já a televisão é um meio frio. Nela, o telespectador torna-se passivo diante da informação. Só a recebe. Não há interação cerebral.
A prova disso está na resposta de um candidato à reeleição, em uma cidade qualquer. Chegou um cabo eleitoral ao gabinete do prefeito que assistia televisão talvez na espera pelo horário político gratuito. O auxiliar de campanha então perguntou: “E aí, chefe, firme?”.
Sem nem piscar, o prefeito/candidato apenas disse por entre dentes: “Não. Novela!” Se fosse filme internacional, provavelmente ele não acompanharia as legendas.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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