‘É gratificante servir ao nosso País’


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Representando o brasil - Representante do País na embaixada em Lima, Hélio Franchini Neto fala com orgulho da carreira diplomática e ressalta as dificuldades para ingressar no Itamaraty: “É difícil, mas compensador”
Representando o brasil - Representante do País na embaixada em Lima, Hélio Franchini Neto fala com orgulho da carreira diplomática e ressalta as dificuldades para ingressar no Itamaraty: “É difícil, mas compensador”
<p>O francano Hélio Franchini Neto ocupa um ponto de observação privilegiado para quem gosta de acompanhar os desdobramentos da política externa brasileira: o de protagonista. Admitido no Itamaraty em 2003, após vencer todas as fases de um concurso público sabidamente difícil, iniciou sua carreira como 3º secretário, o primeiro degrau da carreira diplomática, trabalhando como assessor da Coordenação da Secretaria-Geral de Política Exterior. </p><p>Promovido a 2º secretário em 2006, Franchini serve atualmente na embaixada do Brasil em Lima, capital do Peru, onde uma variedade de temas pertinentes aos interesses nacionais exige a atenção da equipe diplomática lotada naquela representação: exportações e investimentos de empresas brasileiras, assistência humanitária, cooperação militar, projetos bilaterais de integração rodoviária, entre outros. Seu trabalho naquele país é bem visto, tanto que ele será homenageado nesta segunda-feira em solenidade na embaixada, em Lima, onde será agraciado com a Medalha do Exército Brasileiro.</p><p><br />Na entrevista a seguir, além de comentar os êxitos e desafios do Brasil no relacionamento com seus vizinhos, Franchini fala sobre as peculiaridades da carreira diplomática - que tanto chama a atenção dos estudantes do curso de Relações Internacionais existente em Franca, no campus da Unesp (Universidade Estadual Paulista) -, dissipando alguns mitos e dando dicas a quem planeja ser admitido nos quadros do Itamaraty.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Em Franca, há um curso de Relações Internacionais, na Unesp, onde o Itamaraty é o objetivo de muitos alunos. Quais as recomendações que o senhor dá para que as chances deles aumentem?<br />Hélio Franchini Neto -</strong> Em primeiro lugar, recomendo uma coisa: paciência. Não é um concurso diante do qual você pode se desesperar se não passar na primeira tentativa. Tenho amigos que passaram na primeira, mas são raros. E é um concurso abrangente. Não há nenhuma faculdade que o possa preparar exclusivamente. O curso de Relações Internacionais se aproxima bastante do conteúdo pedido em razão das matérias que compõem a grade curricular, mas o foco dessas disciplinas difere um pouco daquele demandado pelo concurso. Então, é uma questão de adaptação também. O concurso passa pelo Português, pelo Inglês, pela Economia, por conhecimentos gerais, sobretudo de história mundial e história do Brasil, com ênfase na trajetória da política externa em se tratando desta última. A prova de Geografia é bastante técnica e a prova de Direito recai prioritariamente sobre direito constitucional e direito internacional público.<br /> <br /><strong>Comércio - Alguma delas requer atenção especial?<br />Franchini -</strong> Um equívoco muito comum em alguns cursos de Relações Internacionais fora do Brasil é o isolamento teórico: cria-se teoria sobre teoria e abandona-se o diálogo com outras áreas acadêmicas na tentativa de definir ou demarcar um campo exclusivo das Relações Internacionais. A característica essencial destas, enquanto área de estudo, é saber beber em fontes da História, da Economia, da Ciência Política, etc. Por exemplo: hoje em dia virou moda falar em ‘soft power’, mas o conceito de “influência”, que equivale, já existe na Sociologia há anos. Falando um pouco mais do concurso, eu diria que bom domínio da língua portuguesa é essencial, é a base de tudo. Certos autores clássicos da literatura nacional são recorrentes na prova. Aconselho estudar durante pelo menos um ano, somente para o concurso.<br /><br /><strong>Comércio - E o esforço vale a pena?<br />Franchini -</strong> A carreira diplomática tem, sim, suas vantagens, mas é, sobretudo, uma carreira burocrática. Digo isso porque existe uma certa mitologia sobre o glamour da atividade diplomática. Festas e coquetéis gloriosos fazem parte desse imaginário. Não é nada disso (risos). Os eventos sociais têm a função de facilitar o intercâmbio e a aproximação, tal como nas empresas. Todavia, convém ter presente que o nosso papel, enquanto parte do aparelho de Estado, consiste precipuamente em assessorar as autoridades na execução da Política Externa traçada pelo presidente e pelo chanceler. É uma estrutura hierárquica, tal como nas Forças Armadas. O diplomata, alguns brincam, é a versão civil do militar. Não há como negar que é uma carreira que oferece grandes oportunidades, como viajar, conciliar os estudos com a profissão, participar dos acontecimentos. Você tem, acima de tudo, a oportunidade de trabalhar pelo País: quando vejo os brasileiros na rua, sei que estou trabalhando para eles (e obviamente sendo pago pelos impostos de todos). A sensação de estar servindo aos interesses nacionais é muito gratificante.<br /><br /><strong>Comércio - O senhor está servindo na embaixada do Brasil em Lima, no Peru, um posto importante, tendo em vista a prioridade da nossa política externa para a América do Sul. Como essa orientação se traduz na distribuição dos diplomatas?<br />Franchini - </strong>A América do Sul, conforme tem ressaltado o presidente e o ministro das Relações Exteriores, é a grande prioridade da política externa brasileira. Por essa razão, nós somos estimulados a escolher postos nos países vizinhos, sobretudo na primeira remoção. Hoje existe um empenho muito grande em aumentar o número de diplomatas nessas embaixadas.<br /><strong><br />Comércio - Até para ampliar a presença, em razão do crescimento dos interesses econômicos do nosso País - inclusive dos calçadistas de Franca - na América do Sul...<br />Franchini -</strong> Sim, mas não apenas econômicos. Políticos, sociais, técnicos... A presença brasileira é cada vez mais intensa nos países vizinhos, criando, inclusive, expectativas por parte destas nações na cooperação com o Brasil. Esse interesse não se restringe aos governos. É encontrado nas próprias populações. No caso peruano, são visíveis os interesses em aprofundar os entendimentos com o Brasil. Conforme nos é dito por diversas autoridades, o País é visto como um ator importante, com o qual o Peru deveria se integrar. Nosso trabalho na embaixada torna-se, assim, muito mais fácil e eficiente com esse espírito. <br /><br /><strong>Comércio - Há receptividade aos investimentos das empresas brasileiras no Peru?<br />Franchini - </strong>Sim, as nossas maiores empresas estão lá. Construtoras, como a Odebrecht e a Andrade Gutiérrez, assim como firmas de diversos segmentos, como a Petrobras, Votorantim, Natura, OAS, a belgo-brasileira Inbev, a Tigre. A Vale do Rio Doce tem muitos projetos e a Braskem, juntamente com a Petrobras, acabou de fechar acordo com a Petroperu para a construção de um pólo petroquímico que praticamente dobrará os investimentos brasileiros no país. É uma presença cada vez mais ampla e bem recebida. Naturalmente, como em todo adensamento das relações, surgem pequenos problemas. Mas é a forma como eles são resolvidos - simples e sincera - e não sua ausência que indica o bom entendimento entre Estados.<br /><br /><strong>Comércio - E quanto a resultados práticos da presença destas empresas?<br />Franchini - </strong>No tocante à integração física, por conta do acordo Brasil-Peru firmado em 2003, está sendo construída a Rodovia Interoceânica Sul, que parte do Acre e atravessa o Peru em 800 quilômetros até o Pacífico (a obra é tocada, em parte, por empreiteiras brasileiras). O impacto positivo dessa estrada no PIB peruano é projetado em 1,5%. Temos também o eixo intermodal norte, onde parte do trajeto é feito por via fluvial, depois por rodovia. Ambos reduzirão o custo logístico das exportações brasileiras, tanto para o país vizinho como para outros mercados. A Interoceânica proporciona ao Peru igualmente uma trilha para o Atlântico. Uma instrução que nós recebemos no Itamaraty é evitar que a ampliação do comércio bilateral seja uma via de mão única, somente para as nossas exportações. Temos todo interesse em equilibrar a balança comercial com nossos vizinhos, pois um comércio desequilibrado tende a gerar problemas, sobretudo tendo em vista a capacidade de escala do Brasil, comparativamente a eles.<br /><br /><strong>Comércio - Então, o trabalho das empresas com a embaixada é permanente? Como funciona?<br />Franchini -</strong> Sim, embora essa não seja minha área específica de atuação, posso dizer que na embaixada em Lima - assim como nas outras representações do Brasil no exterior, embaixadas e consulados - há um Secom (Setor de Promoção Comercial) encarregado de prospectar oportunidades de negócios para as empresas brasileiras no Peru e enviar as informações ao DPR (Departamento de Promoção Comercial), no Itamaraty. Em Lima o nosso Secom é chefiado pelo conselheiro João Alberto Dourado Quintaes, que conta com assessoras especializadas e inclusive trabalha ativamente com as empresas brasileiras atuantes no país vizinho. Os eventos promovidos pela embaixada também ajudam a criar oportunidades de negócios e talvez o maior exemplo disso tenha sido o recente Seminário Empresarial Brasil-Peru, aberto em 17 de maio pelos presidentes Lula e Alan García.<br /><br /><strong>Comércio - Como o senhor avalia a experiência que teve como assessor do Ministério das Relações Exteriores, quando intermediava as relações com o Ministério da Defesa?<br />Franchini -</strong> Minha experiência, ainda que limitada a assessorar a chefia da Coordenação-Geral, foi extremamente positiva. Felizmente, essa atuação conjunta tem se tornado cada vez mais estreita. Não observei problemas quanto ao entrosamento com os militares no cumprimento das tarefas que nos são comuns. Quando surgem pequenos problemas, como é normal no relacionamento entre duas instituições, eles são logo equacionados. Eu diria que os diplomatas e os militares são figuras indissociáveis. Quando eles não compartilham informações e decisões, a Política Externa e a Política de Defesa não vão bem. Muitos dizem: “Quando o diplomata falha, o militar entra em cena”. Essa afirmação é parcialmente verdadeira, pois ambos estão no palco ao mesmo tempo: um está mais visível, o outro menos. Mesmo em tempos de paz, a atuação é simultânea.<br /><strong><br />Comércio - E há algum tipo de atividade, hoje, em conjunto com os militares? Na prática, como elas se desenvolvem?<br />Franchini -</strong> Na embaixada em Lima temos os três adidos militares (do Exército, da Marinha e da FAB, assessores do embaixador). Todos são oficiais de primeira linha, assim como os adidos militares lotados nas demais embaixadas do Brasil na América do Sul, cujo trabalho frutifica na forma de exercícios conjuntos e reuniões bilaterais que reúnem representantes das respectivas chancelarias e Ministérios da Defesa. Com a Argentina, pelo que pude observar em minha função anterior, essa relação é muito boa e tem contribuído decisivamente para o bom desempenho da Minustah (missão de paz no Haiti composta majoritariamente por tropas brasileiras, argentinas, chilenas e peruanas, sob comando do Brasil), muito elogiada no exterior. Além disso, desde 1947, temos a tradicional missão de instrução no Paraguai (equipe permanente de oficiais brasileiros encarregados de capacitar militares paraguaios). É exatamente a colaboração com os países vizinhos nessa área que permite reduzir as tensões, dissipar desconfianças residuais e evitar crises. Isso permitirá manter a nossa região tal como ela é: pacífica, com baixa probabilidade de conflitos no curto prazo, sem agenda de confronto. <br /></p>

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