Ele não é ele...


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Ser é ser notado. Sim. Você, que me lê, está certo. De vez em sempre, volto a esta boa frase de Berkeley, quando quero reafirmar que as pessoas precisam gostar de si, prepararem-se e, sobretudo, “levantarem o braço”, quando precisam ser vistas, reconhecidas. Pense em uma reunião de trabalho, quando lhe propõem um desafio e você se põe a pensar em soluções. Faz seu brainstorming, joga fora as idéias ruins e opta (epa!) por uma delas, suficientemente ousada como resposta ao problema apresentado. Daí, educamente, fica aguardando sua vez de falar. Espanta-se quando alguém, quebrando a ordem de apresentação, grita exatamente aquela sua idéia e é aplaudido, recebe o reconhecimento de seus pares, conquista o lugar que podia ser seu. Está descrito o cenário. (Me surpreendo cada vez que me ponho a analisar os contextos possíveis da frase de Berkeley. Se adapta perfeitamente a centenas de assuntos e capacita o indivíduo a exercitar sua criatividade seja lá em que rumo for. Acho que é porque, no fundo, faz cócegas em nosso “centro de vaidade” e nos estimula a planejar para vencer o outro, principalmente aquele outro que está muito perto, querendo as mesmas coisas que nós...). Meto-me agora a colocar neste palco os candidatos a vereador que, de terça-feira para cá colocaram a cara no vídeo e a voz no rádio, tentando atrair votos de indecisos ou convencer quem nunca os viu. A Justiça Eleitoral garante aos partidos políticos tempo gratuito nos meios de comunicação (rádios e televisões são concessões federais e não tem conversa: manda quem pode e obedece quem tem juízo...) e o resto você conhece: é preciso adaptar tempo à mensagem. São centenas os que pleiteiam e o tempo “ruge”, como diria o personagem-bicheiro de José Wilker, mas só quem se prepara para usar bem os segundos se torna referência na cabeça do eleitor. Não dá tempo para avaliar nada do que dizem (Enéas, com seu bordão genial foi um só e já se foi) e o jeito é focar na imagem. Dediquei algum tempo, esta semana, a assistir aos candidatos e o que vi, me leva a dizer sem papas na língua, que bem poucos poderão ser, nesta eleição, verdadeiramente notados. Em alguns programas os candidatos são mostrados em imagem estática, tipo “santinho” e, na seqüência, ao vivo. A diferença é gritante. O primeiro não é o segundo, ou vice-versa. (Poucos sabem que um programa de computador, o Photoshop, ajuda a tirar rugas, transforma barrigas de cerveja em barrigas “tanquinho”, bundas caídas em “derrières” tipo exportação. A revista Playboy passa as fotos de muitas de suas modelos pelo programa e, mesmo desprovidas, se tornam musas, deusas do Olimpo). São os marqueteiros que querem o candidato “bem na foto”. Aí, se consolida o festival de horror: o cara barba-feita do “santinho” se torna o barba-ruiva do vídeo; os olhos lisos da candidata voltam a ser terríveis ao vivo (calma antes de gritar contra mim: eu também tenho bolsas sob os olhos mas faço delas em fotos ou vídeos. Afinal, não sou o irmão mais novo que não tive). A imagem diz mais que mil palavras, mas a coerência diz mais que mil imagens mexidas. Eu não votaria em alguém em função da beleza exterior, mas votaria, certamente, na beleza interior. Ou, concedendo um pouco mais: eu até poderia votar em alguém feio no “santinho” e feio no vídeo, porque me mostrou coerência. Os marqueteiros precisam rever conceitos e cuidar melhor de seus “pupilos”, ensinando-lhes que nenhum projeto bom, lido (percebam como os “improvisos” escritos nas “cartolinas” mal posicionadas em relação à câmera remetem os candidatos a passearem os olhos pelas linhas, ou então, os transformam em vesgos, um olho na câmera e outro no texto), cabeça baixa, barba por fazer, cabelos despenteados... Eu podia seguir, mas paro por aqui lembrando que há também as falas, o conteúdo dos discursos. A maioria dos candidatos francanos não sabe o que faz um vereador. Alguns aluninhos que visitam o Comércio no Programa Jornal Escola sabem: “eles devem fazer leis e fiscalizar o prefeito, tio”. Ao não saberem produzem pérolas como as que este jornal mostrou em “Candidatos repetem fórmulas...”, disponível em http://www.comerciodafranca. com.br/materia.php?id=33501) Pior ainda: a maioria dos eleitores também não sabe. Se fosse diferente, teríamos uma revolução. Não dá mais para crer em gente que se mete a disputar o Legislativo por causa do poder ou do dinheiro que querem ganhar com o menor trabalho possível. A somatória de candidatos ruins e eleitores piores deixa as câmaras municipais nas mãos de prefeitos inteligentes, sejam eles quais forem. E o povo embarca junto, mal representado e defendido. DESABAFO Sou um cara feio, mas há quem me considere bonito. E qualquer pessoa pode ser bonita. Tem que ter miolo, interior. Não pode sair por aí dizendo abobrinhas. Se me proponho a uma luta, me preparo. Não dá para subestimar quem me avaliará. Meros exames de consciência poderiam reduzir em centenas o número dos que pleiteiam cadeira de vereador. Mas não. Infelizmente. DESABAFO II Dia destes, a mãe de um candidato me pediu voto dizendo que o filho precisa “dar uma acertada na vida”. Agradeci a indicação. Conheço casos de candidatos contumazes, que se acreditam suficientemente conhecidos para serem eleitos. Perdem uma eleição atrás da outra, mas não desistem. Esquecem-se que, devagar, o eleitor começa a pensar com a cabeça e não com o intestino, como fazia antes. DESABAFO III Quando vejo gente disputando cadeira de vereador afirmando que “fará isso e fará aquilo”, quase desisto, pois vereadores não são executores e sim, legisladores. Mas me decido a usar a pena, cá neste Comércio onde uma vírgula vale pela frase inteira, para lembrar aos partidos políticos que lançam candidaturas sem valor apenas para “marcar presença” e “consolidar espaços”, que continuar agasalhando sonhos inconseqüentes de gente despreparada pode “dar água”. Haverá de “dar água”, aliás! Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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