Toda vez que a família de Copola, interpretado por Tarcísio Meira, entra em cena na novela A Favorita, embalada pela canção Por Favor Reza Pra Nóis, de Leonardo, a família do compositor Antônio Domiciano comemora em Franca. Antes de ficar famosa na voz do cantor sertanejo, a música - que tem uma melodia dançante - já tinha sido regravada seis vezes. Com certeza você também já ouviu e dançou: “Por favor reza pra nóis que a coisa tá feia, quanto mais o trem arrocha, mais meto pinga na veia...”
Na noite de quarta-feira, Domiciano, 54 anos, recebeu a equipe do Comércio em sua casa e durante um bate-papo de uma hora e meia ele falou sobre a música, o atual cenário musical nacional, a sua relação com as duplas Rionegro & Solimões e Gian & Giovani e até de futebol e política.
Bacharel em Direito e carteiro há 36 anos, Domiciano aposentou-se, mas continua responsável pelo CEE (Centro de Entrega de Encomendas). Diz-se orgulhoso de ser natural de Itirapuã. Começou a compor há 28 anos. Na hora da inspiração, a sua única companheira é a máquina de escrever. “Não gosto de computador”. Mas, e quando você erra, pergunto. “Jogo a folha no lixo e começo tudo de novo”, afirma.
Sobre a famosa música Por Favor Reza Pra Nóis na novela global, Domiciano economiza palavras. "Não vi ainda. Não assisto novelas e nem à programação da Globo", fala, explicando depois porque é tão inflexível.
Esta é a sétima regravação da música em quatro anos. Os primeiros a gravarem foram Célio Júnior & Fabiano. “A letra é dançante, sem besteira”, ressalta. “Tive que mudá-la um pouco por causa da melodia, feita por um músico de Ribeirão Preto”.
Os novatos João Neto & Frederico também gravaram, mas sem autorização. “Eu fiquei sabendo que eles tinham gravado sem pedir a liberação (no Estado custa em torno de R$ 2,5 mil). Poderia ter esperado eles lançarem o CD e entrar na Justiça, mas entrei em contato com a gravadora antes e eles corrigiram a tempo”, conta o compositor, dono de 225 músicas gravadas pelas duplas Chrystian & Ralf (23), Gian & Giovani (26), Lourenço & Lourival, Sérgio Reis, Matogrosso & Matias, Duduca e Dalvan, entre outros.
Rionegro & Solimões é a dupla que mais gravou músicas de Domiciano: 45. Mas um desentendimento por causa da patente do nome afastou os amigos há dez anos. Mesmo assim o compositor fala dos sertanejos com carinho. “Criei o nome ‘Rionegro & Solimões’ e acompanhei o início da carreira deles. Para evitar brigas na Justiça acabei transferindo a patente para eles e nunca mais tivemos contato”, explica.
Hoje Domiciano tem 150 canções inéditas para serem gravadas. “É uma verdadeira humilhação”, argumenta, referindo-se à luta para conseguir tornar uma música pública. “Autor não existe para os cantores. A gente fornece a matéria-prima para eles, mesmo assim, eles não dão valor”, desabafa.
A MÚSICA
Domiciano conta que a maior musa inspiradora das músicas continua sendo a mulher. “Mas ela perdeu um pouco do espaço para o boi e o cavalo (risos)”, disse, lembrando que o amor é tema universal e não sai de moda.
O compositor lamenta a banalização da mulher nas letras, tratada como objeto de prazer. “Esta música está no fundo do poço. O povo não quer, mas não tem opção”.
Domiciano não se rende ao atual mercado e continua fazendo músicas com temáticas sérias como a fome. Ele também arrisca sambas.
Sobre as novas duplas de sertanejo universitário, Domiciano aposta em Zé Henrique & Gabriel, que, segundo ele, são excelentes violeiros. “Não gosto de criticar, mas César Menotti & Fabiano não cantam, eles gritam”, avalia, afirmando que o sucesso é medido pelo tempo. Ele cita como exemplo os Beatles, Bee Gees, Frank Sinatra, entre outros.
Para ele, a pirataria foi a melhor coisa que aconteceu para os intérpretes. “Os ‘camelôs’ ajudam a divulgar os seus CDs. Mas para os autores foi a pior coisa, porque nós ganhamos em cima das vendagens”, explica. “Antes eu ganhava seis vezes mais com a música, hoje o meu salário nos Correios é seis vezes maior”, ressalta, calculando que o valor dos seus direitos autorais é de no mínimo R$ 5 mil por mês, mas recebe apenas 10%.
Segundo Domiciano, a TV Globo não paga corretamente os direitos autorais pela execução das músicas e existem muitos processos na justiça contra a emissora. “Por isso ainda não tive vontade de assistir A Favorita para ouvir a minha música. Mas é claro que massageia o ego”, revela.
Domiciano se emociona quando conta que gostaria de ter trabalhado com o seu ídolo, Raul Seixas.
MASSA FALIDA
A música que massageia o ego de Domiciano há anos é Massa Falida, considerada hino das greves no País e a canção da vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Duduca & Dalvan gravaram numa sexta-feira e no domingo Duduca faleceu. A música nem foi divulgada, o povo descobriu”, recorda.
Domiciano revela também que Massa Falida foi escrita no final da ditadura militar, por isso, foi censurada. “Na primeira estrofe, no trecho ‘Eu confesso já estou cansado de ser enganado com tanto cinismo’, na verdade era para ser ‘Eu confesso já estou cansado de ser explorado no capitalismo’”, revela.
Um sonho era ver a música regravada por Taiguara (1945-1996) ou ainda por Zé Ramalho.
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