Animais que certamente causa apreensão nas pessoas, é o gato. O bicho tem mesmo um jeito traiçoeiro de ser. Às vezes é misterioso e místico a ponto de dar arrepios, despertando superstições. De outro lado, é um animal carinhoso, bonito, higiênico, sagaz e suficientemente capaz de se safar de momentos de dificuldades, principalmente naqueles em que se depara com um cão à sua frente e tem que se impor com aguçado senso de determinação para livrar a própria pele.
Já para Jim Davis, criador do gato-personagem de desenho Garfield, é um bicho com atributos nada nobres e tampouco recomendáveis. Viu Davis no bicho a oportunidade de apresentar falhas de caráter encontradas no homem e assim explorá-las profundamente, demonstrando que o perfil comportamental de sua criação é comum entre os humanos.
Para quem viu ou leu, a preguiça é imperiosa na vida de Garfield, companheira inseparável e gostosa, levando-o pelas mãos e fazendo com que ele, sem muito esforço, consiga realizar seus desejos.
Mesmo que por vias tortuosas, ele quase sempre consegue o que almeja seu coração. Seu egocentrismo o move e o faz sentir como se tudo ao seu redor existisse para servi-lo; principalmente as pessoas que de seu ponto de vista nasceram nulas, porém com um único objetivo, figurar no mundo para que ele aconteça e seja o grande centro do tudo, e do todo. O bichano é malicioso, dengoso e detentor de inconfundível charme conquistador. Muita gente gosta de seu estilo malandro. Garfield sabe disso, e então explora...
O personagem mal-humorado e de pelagem cor de laranja faz mil e uma peripécias recheadas de artimanhas muito interessantes e também desaconselháveis para quem tem um pouco de juízo. A cada episódio ele apronta, faz e acontece mas sempre sai ileso. De quebra, demonstra escárnio e desprezo pelo que é instituído e considerado eticamente correto.
Seu espírito consumista se revela através de sua interminável fome por comida, pois é um gato e gatos não consomem outros tipos de produtos, pelo menos ainda. Sua gula é estarrecedora, fora do comum, extrapolando todos os limites imagináveis.
O interessante é que o gato-gordo e preguiçoso conquista milhões pelo mundo afora. Jim Davis é, certamente, mais do que um desenhista e autor competente. Criou a essência de muitos humanos, na pele de seu gato. Considerável parcela da sociedade dorme como Garfield, ao não garantir educação adequada para os filhos e forma, em suas crianças, outros Garfields de temperamentos arredios, egoístas, dissimulados, cheios de manhas e, altamente consumistas, motivos dos dissabores para suas famílias, comunidades e futuras crias.
Jim Davis brinca de cobrar a sociedade, que não se apercebe. Em resposta, a sociedade recria o personagem à cada dia, com apenas uma diferença: os filhos de pais garfieldianos são reais e continuadores da espécie...
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e do Comércio da Franca
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