Couro cru


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Devido às minhas intermináveis viagens, somente agora tive a oportunidade de sentar e com toda a calma apreciar o livro Couro cru do amigo Antônio Coutinho. Conheci Franca em 1960 atendendo ao convite do Wilson Sábio de Mello, naquela época diretor presidente da Saméllo ( sim, naquela época com acento sobre o ‘e’), com o qual colaborei depois durante cinco anos. Conheci muita coisa sobre o passado calçadista de Franca, pelas conversas com Wilson ou pelos visitantes que apareciam em nosso escritório. Mas somente lendo o livro do Coutinho descobri que não sabia praticamente nada. A riqueza de detalhes documentados, as histórias que nos remetem ao centro dos acontecimentos de há muito tempo passados e esquecidos, torna a leitura, para quem vive neste meio, uma experiência muito rica. O tempo passa muito depressa. Certos estão que dizem que o tempo voa. Falta dizer que voa a jato. Vejo isso durante as conversas com jovens funcionários nas indústrias, que ignoram por completo o que eram as fábricas na primeira década do século passado. Para os jovens, uma fábrica sem transportadores, as chamadas esteiras, é algo impensável. Da mesma maneira como as crianças de hoje já nascem quase parecendo como saber manusear um computador, os jovens funcionários consideram a tecnologia hoje aplicada como algo que sempre esteve aqui. Calçado palmilhado? O “Rolls Royce’ dos calçados, cuja construção bastante complexa é hoje completamente desconhecida dos jovens. Poucos acreditam que calçado devia ser costurado porque as colas eram primitivas e nunca poderiam segurar o solado no lugar. Poucos acreditam que o solado era até parafusado com parafusos de metais não ferruginosos! Os nomes dos personagens, os nomes das fábricas, muitas das quais hoje não existem mais, evocam tempos tanto de fartura como de crises, periódicas, nas quais as indústrias e os industriais demonstravam capacidade de recuperação e de sobrevivência. Quantos nomes de amigos e de conhecidos, que já partiram e devagarzinho deslizam para o esquecimento. Coutinho nos deve a continuação deste livro com a descrição histórica da segunda metade do século passado, época de consideráveis avanços tecnológicos e comerciais. Época em que o mundo descobriu Franca. Época que assistiu ao crescimento e projeção de indústrias e, também infelizmente, o ocaso dos outrora gigantes que pareciam tão sólidos. Análise destes fatos está esperando por alguém como Coutinho, que com o primeiro livro provou que possui todo o ferramental para se desincumbir gloriosamente da tarefa de escrever também a história da indústria de calçados de Franca de 1950 até 2000, relatando um ciclo que está se fechando com modificações profundas, tanto na produção como na comercialização do calçado. Franca produz hoje, logicamente que não em todas as fábricas, um calçado masculino que pode ser considerado igual ou até superior aos calçados produzidos por tradicionais produtores do primeiro mundo. A fragilidade das indústrias de Franca reside na gestão que ainda anda a desejar se comparada com as indústrias do mundo globalizado. Mas esta análise está a esperar por alguém como o jornalista e historiador Antônio Coutinho. O QUE VEM POR AÍ Mr. Marshal Cohen é analista do grande grupo de lojas retalhistas de calçados e analisa o comportamento dos consumidores. Com a ameaça de recessão nos Estados Unidos (e com reflexos sobre a economia mundial incluindo a brasileira) fez o levantamento daquilo que será cortado em primeiro lugar, quanto a gastos. Comer fora de casa será o primeiro corte. Segundo será a compra de roupas e calçados. As fábricas que já possuem vendas on-line até podem lucrar com isso, porque com as ofertas de frete grátis e outras os consumidores acham vantajoso este sistema de compras. AINDA COHEN Também condena o tipo de marketing e propaganda dos fabricantes de calçados, que até hoje não se convenceram que o primeiro item, de longe o mais importante, é o conforto. Está bem na frente de considerações sobre preço, estilo, cor ou marca. O cliente quer sentir o calçado tão confortável que, se puder, já sai da loja calçando a compra. TAMBÉM O SERVIÇO O que vale para os balconistas vale para os vendedores das fábricas. O comprador quer atenção, quer esclarecimento, quer ajuda. Um cliente entra na loja e vê 350 tênis diferentes. Quem vai ajudá-lo a escolher o apropriado? O serviço em todos os sentidos não é um gasto caro. O serviço não tem preço. CALÇADO ECOLÓGICO A tradicional fabricante de palmilhas dos Estados Unidos, a Texon, fechou parceria com uma firma de Calcutá, Índia, para fabricação de novos materiais para palmilhas, couraças e contrafortes, com base nos materiais renováveis, para evitar o uso de madeira para celulose e de petróleo para resinas. Materiais serão látex natural e fibras de juta, ou materiais reciclados. Os primeiros testes foram muito bem sucedidos. O novo material foi denominado Renotex. Estamos mais um passo perto de um calçado ecologicamente concebido e funcional. Zdenek Pracuch Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br

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