‘A escola é do povo`


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COM A COMUNIDADE  - O diretor da escola “José dos Reis Miranda Filho”, Marcos Antônio Amaral: a ligação da escola com as famílias é fundamental para o sucesso da educação
COM A COMUNIDADE - O diretor da escola “José dos Reis Miranda Filho”, Marcos Antônio Amaral: a ligação da escola com as famílias é fundamental para o sucesso da educação
<p>Marcos Antônio Pereira do Amaral, 40, conseguiu o que muitos acham impossível: transformar uma escola pública em exemplo com poucos recursos e medidas simples. Em Franca há quase quatro anos, comanda a Escola Estadual “Professor José dos Reis Miranda Filho” pelo terceiro ano consecutivo. O diretor da unidade defende com unhas e dentes a parceria entre escola e a comunidade. Na unidade onde é diretor, na Vila Santa Maria, a participação dos pais é uma das mais ativas da cidade. Para Marcos, quando os pais ajudam, quando têm seu suor em alguma conquista, valorizam mais e cuidam melhor da escola. “É uma parceria. Educar não é só responsabilidade da escola. O gestor, por sua vez, não pode encarar a escola como propriedade sua. A gente dirige, mas ela é da comunidade”.</p><p><br />Marcos conhece os alunos pelo nome, os recebe todos os dias no portão, vista os cadernos, conhece a história das famílias e trabalha em conjunto com os pais. O diretor chega a ficar doze horas por dia na unidade. Na Escola “Mirandão”, como também é conhecida, a APM (Associação de Pais e Mestres) paga até psicólogo particular para alunos com problemas graves. </p><p><br />Marcos comanda 600 alunos de 1ª a 4ª séries, 27 professores e 14 funcionários. No terceiro ano de sua gestão, melhorou a fama da escola, está construindo uma nova história e já colhe bons frutos desse trabalho: levantamento recente do MEC (Ministério da Educação), feito com base no Ideb (Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico) de 2007, equipara a Escola “José dos Reis Miranda Filho” a instituições de países do primeiro mundo. A unidade foi a segunda melhor classificada na região de Franca. Para Marcos, dedicação e comprometimento são palavras-chave.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Quando o senhor assumiu a direção de escolas em Franca?<br />Marcos Antônio Amaral -</strong> Mudei para Franca por remoção da Secretaria Estadual de Educação para ser diretor do Cefam em dezembro de 2004, mas o Cefam fechou e assumi a diretoria da escola “Miranda” porque o cargo estava vago. Nasci e fui criado numa cidade de 36 mil habitantes. Havia perdido meus pais havia pouco tempo e eu queria morar numa cidade maior. Sempre ouvi falarem bem de Franca e quis me mudar.<br /><br /><strong>Comércio - A Escola “José dos Reis Miranda” teve momentos difíceis há alguns anos. Qual a realidade encontrada pelo senhor?<br />Marcos -</strong> A escola “Miranda” vinha numa trajetória de muitos problemas. Todos os diretores, nos cinco anos anteriores, nunca ficaram na escola. Um diretor substituía o outro por seis meses, depois mudava e assim não havia continuidade do trabalho. É como numa casa: precisa ter quem comande. Encontrei uma escola desacreditada, onde ninguém queria estudar, com várias salas fechadas, que tinha a repulsa da comunidade. Não era uma situação muito confortável para assumir uma escola, mas se tivermos comprometimento é possível mudar, acertar. A equipe de professores é boa, mas faltava o gestor, a cabeça.<br /><br /><strong>Comércio - Que mudanças o senhor implantou que alteraram esse cenário a ponto de ser a segunda melhor escola estadual da região?<br />Marcos -</strong> Primeiro: você não muda a escola sem ter a comunidade ao lado. É uma parceria. Você tem que ter uma equipe que entenda sua fala e caminhe junto, porque ela é um alicerce de trabalho: professores e funcionários. Mas a mola, o caminhar, o que precisa ser feito mesmo é com o pai. O pai tem de se sentir parte integrante. Ele não pode ter a escola só como um lugar onde levou o filho e acabou. Não, precisa pensar: “aquela escola é minha, eu preciso cuidar dela, porque meu filho está lá, meus netos, meus sobrinhos vão estar lá”. Uma escola tem de ser da comunidade e ser aberta para recebê-la.<br /><br /><strong>Comércio - Por que a presença dos pais é essencial?<br />Marcos - </strong>A presença da comunidade facilita nosso trabalho. Quando o pai participa, ele acredita. Acreditando, vai ajudar, participar das atividades, estar presente, ser ouvido. Sabe quantas horas eu trabalho por dia nesta escola? Chego a ficar aqui 11, 12 horas. Não saio para almoçar. A presença do gestor é fundamental. Eu atendo pais. É claro que sou solteiro e fica mais fácil fazer isso; sou casado com a escola. Tenho costume de olhar cadernos mensalmente de toda a escola. Às vezes passo o sábado inteiro na escola vendo cadernos. O pai vê isso. O aluno fica feliz porque ele sabe que eu leio. Eu conheço as crianças nome por nome. <br /><br /><strong>Comércio - São atitudes simples....<br />Marcos -</strong> Simples. Na maioria das vezes o diretor se encastela, não recebe, não atende. Atendo pais o dia inteiro. Não tem que marcar horário. Eles têm o que falar e muito a sugerir. A educação só muda e só tem qualidade se escutarmos os pais. Têm pais que chegam com histórias que não funcionam, mas você vai ouvir para ponderar. Temos de ouvi-los. Apesar da escola ter crescido muito na colocação do Ideb, ainda tem problemas. Precisa melhorar, como qualquer escola pública. E o diferencial do “José dos Reis Miranda” é nunca deixar uma criança de lado. Por todos os anos que estou aqui mantemos uma parceria muito próxima com o Conselho Tutelar. É muito fácil ter escola muito boa quando você tira os problemas dela, mas a escola pública não é para isso, é para enfrentar desafios. Nosso desafio é trabalhar com aquela criança que tem uma família desestruturada, que tem problemas na família, é criada pelos avós, que já traz bagagem negativa para a escola. Todo trabalho de fazer a auto-estima e mostrar um caminho a seguir é da escola. Vou para o portão, converso com os pais no portão. Tivemos uma quermesse junina e não saí para pedir um tomate. Os pais se prontificaram a doar coisas para a festa.<br /><br /><strong>Comércio - Esse tipo de festa é comum em escolas. O que é feito com o dinheiro?<br />Marcos -</strong> O Estado ajuda muito, mas tem 6 mil escolas e faz o básico. Podemos melhorar, fazer mais. E quando a comunidade passa a colaborar, ela protege a escola porque ela sabe que trabalhou para fazer o quiosque que fizemos aqui no pátio (o investimento foi de R$ 9 mil), para implementar uma pintura que a rede do Estado ajudou e a comunidade complementou. Eles precisam acreditar na escola.<br /><br /><strong>Comércio - Como estimular os pais a participar?<br />Marcos -</strong> A escola é feita para a comunidade. Quando cheguei aqui, a reunião de pais era às 9 e 14 horas. Impossível. A empresa não tem como liberar os pais. Hoje reunião de pais começa às 18 horas. Você tem que facilitar. Eles saem do emprego e seguem direto para conversar com a professora ou comigo. Outro detalhe importante é acolher esse pai. É o espaço dele. Já tivemos avó que veio contar histórias no pátio , mãe que veio fazer bolinho de chuva para a escola inteira. Aí os alunos escreveram a receita, as medidas dos ingredientes, etc., porque nada acontece por acaso numa escola.<br /><br /><strong>Comércio - O que os pais falam para o senhor?<br />Marcos -</strong> Geralmente ele precisa desabafar seu problema. Todos nós temos problemas. Ouvimos e propomos intervenção. Temos algo inédito aqui: a APM (Associação de Pais e Mestres) paga psicólogo particular para as crianças com mais necessidades porque sabemos que a fila de espera do sistema público é demorada. Tem criança que precisa passar por psicóloga. Pagamos profissionais com promoções. A escola é diferente. Tanto que não temos vagas, precisaríamos construir mais salas porque a lista de espera é muito grande (cerca de 120 alunos). <br /><br /><strong>Comércio - O que o senhor acha do salário dos professores?<br />Marcos -</strong> Poderia até ser melhor pela responsabilidade do educar, porque numa casa se você fizer uma parede errada, quebra e faz de novo. E você não pode errar com a criança. Ela tem sete anos uma vez só. A criança que foi mal alfabetizada carregará os erros da má-alfabetização para o resto da vida. É a base. É preciso ter reforço, recursos justamente para ajudar os que tem mais dificuldades, até porque os dedos das mãos não são iguais. Cada um tem seu tempo. A criança tem que aprender progressivamente... É claro que é preciso lutar por melhores salários, mas não posso tornar isso uma bandeira e negligenciar. Tenho de dar o melhor de mim até para poder cobrar.<br /><br /><strong>Comércio - Pelo Ideb, a Escola “José dos Reis Miranda” é a segunda melhor da região. Esses sistemas de avaliação do governo funcionam?<br />Marcos -</strong> São muito válidos. É um norte para vermos nosso trabalho. Ninguém deve se sentir inferiorizado com a classificação. É claro que foi uma alegria termos conquistado uma ótima colocação no Ideb. É resultado de toda a história de mudança que estamos vivendo. Mas é mais uma bússola para saber onde erramos, onde acertamos. <br /><br /><strong>Comércio - O que o senhor acha da tão criticada progressão continuada?<br />Marcos -</strong> Sou contra a reprovação. Desde quando reprovar faz a auto-estima de alguém melhorar? Acho que faltou preparar o professor para a progressão continuada. A progressão ainda tem um nó porque o professor precisa fazer no começo do ano uma avaliação para diagnosticar. Não interessa que está com uma sala de 3ª série. É preciso saber onde a professora da série anterior parou e começar o trabalho a partir dali. Não concordo com a repetência porque o aluno vai ver tudo igual. A criança tem de acreditar que ela pode, que vai ser um sucesso. <br /><br /><strong>Comércio - O Estado tem projeto-piloto de dois professores em sala de aula. O senhor concorda?<br />Marcos - </strong>Estamos aguardando ansiosamente por isso. Acho que tudo que vem somar é muito bom. É um profissional a mais na escola para atender ao aluno. O professor geralmente têm 30 alunos em sala de aula. Acho muito importante para nos ajudar.<br /><br /><strong>Comércio - Em junho, um aluno ameaçou um professor com uma faca em Franca. Como o senhor vê a violência nas escolas?<br />Marcos -</strong> Não é realidade aqui, mas a gente sabe que existe. Temos uma sociedade violenta aí fora. Se a pessoa tem alguém em casa que bate, que agride, vai reproduzir isso. É claro que nos entristece. Mas não estamos acéfalos em relação a isso. Mas volto a dizer: é o trabalho em comunidade que vai mudar. Não podemos nos conformar e cruzar os braços. Temos de combatê-la intensamente com bons exemplos, trabalhando a equipe pedagógica com a família. Não devemos jogar pedra, mas ajudar. A escola está para ser parceira da família. O problema é que a família está deixando tudo para a escola. Ela é parceira. Estamos aqui junto dos pais para ajudarmos o filho ou filha.  <br /></p>

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