Eles são chapas


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NA ESTRADA - Os chapas negociam o preço da carga com o motorista do caminhão. Em média, a diária chega a R$ 70
NA ESTRADA - Os chapas negociam o preço da carga com o motorista do caminhão. Em média, a diária chega a R$ 70
Com seu “acampamento” montado na beira da Rodovia Cândido Portinari, Antônio José Felipe, 43 anos, fica sentado em um lugar de grande visibilidade. Ele chegou às 5 da manhã, com uma malinha de roupas e uma marmita para passar o dia. A cada caminhão que passa, ele acena fazendo o típico sinal de carona, mas o que ele busca é um trabalho. Descarregar e carregar, esta é a função de Antônio, que trabalha há dez anos como chapa. “Já fiz de tudo um pouco na vida, mas acabo sempre aqui na beira da estrada. Nem sempre compensa trabalhar com carteira assinada, por que não dá para sobreviver com um salário mínimo”, disse. O ponto de chapa de Antônio e mais quatro trabalhadores é embaixo de um viaduto da rodovia no sentido Ribeirão Preto-Franca. “Tem dias que conseguimos mais de uma carga, mas tem dias que não conseguimos nada, então, ficamos aqui jogando conversa fora e esperando”, contou. Quando perguntado se o trabalho compensava financeiramente, Antônio olha para o lado desconfiado, coça a cabeça e fala: “Aí você me complica, porque, se eu falar, amanhã vai ter um monte de gente apinhocada aqui na rodovia”. Mas depois o trabalhador muda de idéia e diz que “tudo depende do que for combinado com o motorista, mas a média é de uns R$ 40 por carga”. Segundo os trabalhadores, agosto é um mês ruim para faturar. “De fevereiro a julho e de outubro a dezembro é melhor”, conta Antônio, que é pai de três filhos e principal responsável pelo sustento da casa. Ainda no mesmo trecho da estrada, perto da Polícia Rodoviária, existem mais dois pontos de chapas. Um deles fica em frente ao Posto Cândido Portinari; lá 15 trabalhadores ficam diuturnamente em busca de cargas. Um deles é Sebastião Cândido Teodoro, de 58 anos, 22 destes atuando em carga e descarga de produtos. “Antigamente trabalhava como serralheiro e eletricista. O último emprego que tive com carteira assinada foi em 2004, mas fiquei só três meses porque não agüentei, sinto falta desta liberdade”, contou o senhor, que mora no Jardim Brasilândia e vai até o ponto todos os dias de bicicleta. “Eu já fui casado, tenho três filhos, mas todos já têm família, então eu moro sozinho. Mas não acho ruim não, gasto meu dinheiro como quero, não tenho que sustentar nem dar satisfação pra ninguém”, disse Sebastião. Situação diferente é a de Antônio Benedito da Silva, de 44 anos, com nove filhos para criar. “O mais velho tem 14 anos e a mais nova tem 2 anos”, contou orgulhoso. “Há 14 anos, minha família sobrevive disto. Não posso reclamar do trabalho. A última vez que tive carteira assinada foi como motorista, antes de eu começar como chapa”, disse o trabalhador que ganha em torno de R$ 70 a diária. “Eu complemento minha renda cantando forró nas boates à noite. Agora estou me apresentando no Salão do Passarinho, lá na Estação. Faz 11 anos que sou cantor”, disse Antônio. [FOTO2] Apesar de alguns chapas trabalharem há duas décadas neste ramo, ninguém sabe dizer por que a atividade recebeu esse nome. Segundo a Classificação Brasileira de Ocupações, a nomenclatura “chapa” é sinônimo de carregador de caminhão, carregador de vagões, movimentador de mercadoria e arrumador de caminhões. Porém, nem no Ministério do Trabalho existe uma menção que remeta à origem desta terminologia. Assim, restam as especulações. “Eu acho que é porque os motoristas quando chegam e falam, e aí, meu chapa, quanto é a carga?”, falou Antônio Felipe, aos risos.

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