Santinho eleitoral


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Imagino ser preciso muita coragem para sair com a cara estampada em folhetos; ter a imagem exposta e difundida por toda a cidade sem ter a menor idéia de onde eles irão parar, nas mãos de quem estarão, e ainda, qual tratamento será dado pelo eleitor ao pequeno pedaço de papel que fala pelos candidatos... No entanto, uma coisa é certa: essa forma de divulgação pode sim, influenciar no voto. Isso vai depender da cara do “santinho” e da leitura da face do pretendente, feita pelo eleitor; intuindo num primeiro momento algo que ajude ou não esses postulantes. Mas em se tratando de política, nunca é demais para o eleitor estar sob ostensiva cautela afastando possíveis estados de euforia ou de torpor psicológico, pois o que não falta nesse momento são estratégias de marketing eleitoral, ou seja: método que na maioria dos casos é nem um pouco comprometido com a ética, e muito menos alinhado como os ombros da verdade. Por isso, é indispensável a cautela. O nome dado aos folhetos de divulgação eleitoral que reúnem a imagem, nome, propostas, número e coligação dos candidatos revela-se, logo de cara, ação de persuasão: “santinho”. Remete o pensamento a algo ingênuo, puro, honesto, caridoso, com bondade intrínseca e acima de qualquer suspeita. Ao ter contato com o “santinho”, o eleitor observa logo a foto. Sua curiosidade está em saber se conhece ou não aquela figura estampada ali. Após, ele passa a julgar a aparência observando o formato do rosto, os cabelos, os traços faciais, se está sorrindo, se está sério, sisudo, tenso, assustado e etc. etc. É possível identificar nas fotos dos “santinhos” as mais variadas formas de expressão: a do feliz, que abre um sorriso rasgado e forçado de orelha a orelha deixando aflorar a indisfarçável incapacidade em fingir que está fingindo; a do sistemático, que prende a respiração, estufa o peito e fica com cara de de “sistemático” mesmo; a do sonhador, que orientado pelo fotógrafo encontra um ponto no vazio, como se estivesse olhando para o infinito horizonte e, talvez, lá no seu íntimo, se perguntando: afinal, o que estou fazendo aqui? Há também o austero, aquele que fica com a cabeça meio de perfil, projeta o queixo e lança um olhar obstinado como se fosse dominar o mundo; o do lindo, que no melhor estilo Don Juan tenta explorar sua “beleza” e, como geralmente a foto é estampada do ombro para cima, a cabeça acaba sendo estratégica: o corte de cabelo é fundamental e o olhar de conquistador (que precisa ser bem ensaiado pra não correr o risco de ficar com cara de safado), para impressionar as eleitoras. Tem também e finalmente, o “bonzinho”, com carinha e jeitinho carismático o típico representante do bom mocismo. Os “santinhos” são mais uma ferramenta do jogo democrático. Vê-se então, que não há muito que fazer, o jeito é votar e também “rezar” para que o “santo”, se eleito for, não nos decepcione... Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e do Comércio

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