Por mais que se maltrate a Terra, ela não pára. A cada período de 365 dias (366, em ano bissexto), incansavelmente completa sua eterna translação orbital em torno do Sol, sempre seguindo a direção de oeste para leste. A movimentação terrestre não tem necessidade de mudanças. Contenta-se com o seu primordial mecanismo de produzir o dia e a noite. Não acelera a rotação nunca. Chova ou faça sol. Nada importa. Tem sempre a mesma velocidade.
Somente as condições climáticas sofrem modificações. Sempre por interferência do homem. Claro, na condição humana, a mulher está também mais que junto nessa nefasta devastação. Todos têm uma cota de culpa no descontrole da natureza. Cada acelerada dada no motor de um veículo qualquer, cada ponto de fogo lançado em todo tipo de vegetação, cada porção de água desperdiçada e muito mais. A lista de agressão não tem fim. Quase tudo que é artificial contribui para alterar o equilíbrio dos fenômenos naturais.
A própria sabedoria do homem rural prediz: quase não chove em mês sem a letra R. Principalmente no último deles. Por isso mesmo, agosto é conhecido como um mês de muita ventania, muita poeira, com conseqüente (por enquanto, o trema ainda está em vigor) formação de redemoinhos carregados de superstições e nenhuma chuva. Mas, contrariando as mais abalizadas previsões, choveu muito no nordeste do Estado de São Paulo neste início do agourento agosto.
Este oitavo mês do ano começou com seu característico ar. O tempo andava cinzento, completamente turvo. Porém, sem estar nublado. Apenas uma seca nebulosidade tomava conta dos dias agostinianos. Ninguém poderia imaginar uma esplêndida manhã de setembro, em pleno dia 6 de agosto. Com a chuva da última terça-feira, a quarta-feira amanheceu lavada. O sol radiante apoderou-se inteiramente do azul do firmamento.
Faltaram mesmo somente as cigarras para cantar, como sempre fizeram nas manhãs de setembro. Por outro lado, os ipês amarelos aproveitaram-se da inesperada umidade de agosto e soltaram suas fartas e belíssimas flores. Se ainda não viu, olhe rápido pelas ruas, avenidas ou praças, para se extasiar com um imponente ipê amarelo. Pois, logo, logo as flores caem, transformando a terra ou o calçamento circundante em um dourado tapete.
A chuva é benfazeja. Logicamente que não houve nenhuma relação, mas até a água, que ia faltar, resolveu não faltar. Continuou a correr pelo cano. Chegou à torneira. Escorreu pela pia. Voltou novamente para outro cano e foi parar no rio. Daí, ela acabou evaporada pelo sol. Quem sabe, como afirma um dos versos da letra da música Planeta Água, de Guilherme Arantes, “para formar nuvens de algodão”. Podendo, assim, retornar brevemente na forma de chuva. Afinal, setembro é o próximo da fila. E é um mês que tem a letra R. Aliás, o nono mês do ano é o primeiro, com R, de uma série de oito, que só vai terminar em abril. Quando então tudo voltará a se ressecar.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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