Recebi por mãos boníssimas convites para a estréia, sábado, da Orquestra Sinfônica de Franca no Teatro Municipal, regida por Nazir Bittar, cujo currículo e formação musical impressionam: já passava da hora de o francano conhecer a excelência clássica de uma sinfônica regida por alguém realmente comprometido com a magia que a música erudita proporciona; Nazir Bittar passou do ponto de “um promissor maestro”, para galgar o status seriíssimo de maestro da nossa sinfônica e de tudo que ela opera nos homens de alma sensível. Seguem-se algumas observações.
O local - tecidos negros no palco envolvendo os musicistas, teto da platéia muito baixo, forrado por placas porosas, paredes laterais com ranhuras, elementos que comprometem severamente os sons, notadamente os graves de cellos e contrabaixos. Nada que não se possa otimizar, não é mesmo?
O público - comportamento irretocável. Silencioso, atento, gentil, emocionado. Foi tanta a gentileza que doaram algumas palmas fora de hora, mas nada que comprometesse a fortíssima empatia orquestra/maestro/espectador.
As cordas - muito além do esperado em vista do tempo de ensaio. Destaque à cellista spalla Gladys Pádua e à sempre justa e precisa Lúcia Garcetti, convidada para execução do cembalo.
Os sopros - molto benne nas flautas transversais, notadamente na interpretação de Bizet; alguns desencontros quase imperceptíveis de trompetes e trombones andam merecendo tempo de ensaio para a sincronia perfeita, o toque justo e limpo, o andamento maestrado.
Coral da Igreja Adventista do Sétimo Dia -impressionou bem pelo corpus vocal.
Quarteto Opus Vivace - bela performance. Destaque para a soprano Priscila Cubero e louvor ao barítono Fernando Diniz. Pergunta que correu a platéia: “Como sua caixa torácica comporta aquela potência vocal?” Notável extensão de voz.
Repertório - belo e ousado para uma estréia. Didático pela cronologia apresentada - Barroco (Händel e Bach), Clássico (Mozart) e Romântico (Bizet). Delicada e gentil a escolha de Bittar pela Alma espanhola, da francana Inah Machado Sandoval, com arranjo orquestral do próprio maestro.
Uma observação importante -numa cidade que vive a ausência de uma sinfônica e respira o popular, ruidoso e festivo dos forrós e sertanejos, quem não gosta isola-se entre seus CDs de clássicos regidos pelas sinfônicas de Berlim, de Londres, de Nova York, por exemplo. Acostumamos nossos ouvidos à excelência que beira a perfeição. É preciso muito cuidado no discernimento, e muito, muito incentivo ao que seja nosso!
Maestro - belíssimo! Movimentos e postura garantiram a segurança dos regidos. Sobrepôs-se à orquestra, o que, na realidade, não devia ter ocorrido. Mas foi inevitável. Como não notar simpatia, ternura, competência, sensibilidade, comando, movimentos precisos?
Mas maestro não deve ser o protagonista, a figura central: apenas um intermediário entre a obra e os executantes. Nazir Bittar sabe disso. Sabe também que haverá de ser figura secundária. Difícil: a aura que o ilumina vem desses lugares imarcescíveis e líricos, onde, com certeza, brilharam de forma cristalina os olhos claros de seu pai. Aos poucos, sua muito controlada, mas ainda forte, linguagem corporal dará lugar aos instrumentistas e vocalistas, à sonoridade dos concertos que virão, esperamos, muito em breve.
O resultado da noite - só quem esteve presente pôde presenciar a forma de agradecimento de tão precioso presente. De pé, aplausos ininterruptos entrecortados por “Bravos”, peças extras executadas e um querer coletivo de não terminar aquele momento mágico.
Por tudo, a todos os músicos, instrumentistas e vocalistas, um sonoro e sincero BRAVÍSSIMO!!!
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