Estancou-se a negociação que permitiria derrubar ou reduzir barreiras comerciais entre as nações, cujo êxito beneficiaria sobretudo aqueles que dependem de exportação agrícola. O grupo de países mais ricos do mundo reiterou que o livre comércio, para eles, significa apenas vender mais e manter travas às importações.
Os demais países são aconselhados a fazer o que pregam os governos e instituições financeiras sediados no lado rico, enquanto este segue caminho diferente.
O que se chamou fracasso da última negociação da Rodada Doha, realizada em Genebra, não é mais que uma conclusão previsível. Embora nosso Ministério das Relações Exteriores e chefe de Estado tenham exercido bom papel, o Brasil é um gigante que, às vezes, finge brigar como gente pequena. A prioridade deve ser o abastecimento do mercado interno e o desenvolvimento de produtos e serviços que os países mais ricos não tenham como recusar.
A maior queixa dos países em desenvolvimento, em cuja categoria se insere o Brasil, refere-se à dificuldade de exportar produtos agrícolas aos Estados Unidos e União Européia devido aos subsídios e taxas que encarecem a importação. Empregam-se medidas artificiais ao livre mercado para frear a entrada destes produtos, que são muito competitivos, ou seja, mais baratos e de melhor qualidade que o que produzem lá, como café, laranja e soja.
Defendo que os países em desenvolvimento diversifiquem seus produtos de exportação e aumentem o investimento em ciência e tecnologia. É inviável que o Brasil continue concentrando as exportações no setor primário e negligenciando o desenvolvimento de produtos industrializados e serviços inovadores. Agrega-se tecnologia à agricultura, porém os países ricos não dependem do que o Brasil exporta, ao contrário dos computadores e componentes hospitalares que nos chegam.
O grupo dos países mais frescos do mundo, quer sejam chamados de centrais ou desenvolvidos, poderia ter aceitado as propostas da diplomacia brasileira, mas não o fez para defender seus interesses comerciais e forçar a negociação de acordos bilaterais. Desde quando faliu o projeto continental da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) em 2005, o Brasil tem sido a ovelha negra das negociações em prol de acordos bilaterais de comércio na América Latina.
Os Estados Unidos bombardeiam países ditos terroristas (alguns lamentavelmente se convencem disso) com armas de última geração e lá deixam tropas militares como se fossem donos do pedaço. Nas nações em desenvolvimento, os estadunidenses despejam seus produtos eletrônicos, que criam uma necessidade cada vez maior de tê-los em casa, no escritório e na escola. Os computadores pessoais e o uso da rede mundial introduziram novas atrações e serviços, como o sexo virtual.
O Brasil havia sido a boneca inflável dos países mais ricos: brincam, puxam, enfiam e gozam. Hoje, porém, começa a mostrar que pode participar das discussões de gente grande sem a frescura que caracteriza o clã dos que fingem negociar e não cedem. O Brasil encontrou dificuldades, não conquistou o que queria, mas despertou-se para o tipo de desenvolvimento que deve buscar. Não dá mais para aceitar que nosso País sujeite suas decisões.
Bruno Peron Loureiro
Latino-americanista.
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