Em meio aos milhares de documentos apreendidos pelo Exército colombiano nos computadores de Raúl Reyes, líder das FARC morto em 1º de março, 85 e-mails confirmam as conexões da narco-guerrilha com a cúpula do governo Lula, líderes do PT, sindicatos e funcionários do Poder Judiciário - ao que se somam as conhecidas parcerias com quadrilhas como o PCC e o Comando Vermelho. Os dados constam de matéria publicada quinta-feira pela revista colombiana Cambio.
As 85 mensagens, remetidas durante o período 1999-2008, circularam entre dois homens residentes no Brasil - identificados como “Mauricio Malverde” e “José Luís” - e quatro figurões das FARC: Manuel Marulanda, líder máximo falecido em março, Raúl Reyes, nº 2 na hierarquia da organização e igualmente morto em março, Mono Jojoy e Olivério Medina, “embaixador” da narco-guerrilha no Brasil, onde vive desde 1997. Medina também é conhecido como “padre Camilo”, mas seu nome verdadeiro é Francisco Antonio Cadena Collazos. Sobre ele pesa uma ordem de prisão na Colômbia por participação em ataques terroristas datados de 1991. Teve sua extradição pedida por Bogotá em 2002 e, por conta disso, chegou a ser preso pela PF em agosto de 2005.
Na ocasião, vários partidos e entidades no Brasil se mobilizaram em campanha para influenciar a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), sob alegação de que o réu era um “perseguido político”. Da campanha de e-mails e abaixo-assinados enviados ao STF participaram sindicalistas, jornalistas e militantes do PT, do PSTU e da UNE. A amplitude da gritaria foi comemorada por Raúl Reyes em um e-mail datado de 17 de setembro de 2005: “É bastante significativa a solidariedade dos partidos comunistas do Brasil no esforço para impedir a extradição.
Há um importante grupo de amigos solidários conosco que inclui sindicalistas, professores, congressistas, ministros e advogados empenhados em pressionar pela liberdade imediata de padre Camilo”. O pedido de extradição foi negado em março de 2007 e, além disso, o STF concedeu-lhe o status de “refugiado político”. Um ano depois, os arquivos encontrados nos computadores de Reyes comprovaram que Collazos é encarregado de trocar cocaína das FARC por armas no Brasil e de recrutar simpatizantes para a narco-guerrilha em nosso País.
Num e-mail enviado a Raúl Reyes em 25/09/2006, Collazos se vangloria do apoio que recebia do presidente Lula enquanto o processo tramitava no STF: “Há alguns dias, Lula chamou o ministro Paulo Vanucchi [Secretário Nacional de Direitos Humanos], indicando-lhe que ligasse ao advogado Ulises Riedel e o felicitasse pelo sucesso jurídico na sua brilhante defesa em favor do meu refúgio”. Em outra mensagem, de 23/12/2006, Collazos conta a Reyes ter enviado cartões de Natal a Lula dois assessores do presidente. Seis dias depois, um presente: sua mulher, a brasileira Angela Maria Slongo, foi agraciada pelo ministro da Pesca, Altemir Gregolin, com o cargo de oficial de gabinete - fato comemorado pelo colombiano em e-mail remetido a Reyes em 17/01/2007.
Os dois assessores citados por Collazos são Silvino Heck e Gilberto Carvalho, chefe de Gabinete da Presidência. Segundo relata o “embaixador” das FARC a Reyes em 23/02/2007, ambos “nos ajudaram bastante”. Carvalho integra o conselho editorial da revista America libre, dirigida por Emir Sader, professor da USP e militante petista. Do conselho editorial também fazia parte o comandante das FARC, Manuel Marulanda.
Entre os 85 e-mails figura um sem data, mas revelador, enviado por Collazos a Reyes: “Falei com a deputada federal Maria José Maninha (PT). Combinamos que ela me abrirá caminho rumo ao Presidente via Marco Aurélio Garcia”, assessor de Lula para assuntos internacionais. Em outra mensagem, enviada a Reyes por um certo “José Luis” em 04/07/2005, figura o nome de José Dirceu, então Chefe da Casa Civil: “Breno Altman [dirigente do PT] veio falar comigo, enviado pelo ministro José Dirceu.
Disse-me que, por razões de sigilo, eles acordaram que as relações não passarão pela Secretaria de Relações Internacionais, mas diretamente através do ministro, representado por Breno”. No final da mensagem, “José Luís” diz que o governo brasileiro e o PT protegerão Collazos durante o trâmite da extradição: “Perguntei [a Breno Altman] se podíamos ficar tranqüilos, se não o deportariam, e ele me respondeu: ‘Podem ficar tranqüilos’”.
Um dia após a sentença favorável do STF, Collazos enviou um e-mail a Reyes revelando que seria visitado pelo chefe da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, e dois de seus subordinados, Dalmo Abreu Dallari e Perly Cipriano, todos preocupados em averiguar se o narco-terrorista havia sido bem tratado durante sua estadia na cadeia. A reunião ocorreu e foi confirmada sexta-feira por Cipriano.
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